Bertoldo Weber
Gravatal

Notisul – O senhor continua o mesmo entusiasta de sempre quanto ao cooperativismo?
Comelli
– Para mim, o cooperativismo deveria ser matéria de sala de aula. Tenho orgulho de pertencer a uma organização que está em 110 países no mundo. No Brasil, temos oito mil cooperativas. Em Santa Catarina, são 273 empresas neste sistema e nos mais diversos ramos de atuação. Muitos nem lembram que quando estão em frente à TV ou debaixo do chuveiro quentinho, que existe uma cooperativa trabalhando para que este cidadão desfrute destes benefícios. Em Gravatal, a Cergral é responsável pela iluminação pública de quase 100% do município. E tudo feito com qualidade.

Notisul – Como foi o começo das cooperativas de eletrificação na região?
Comelli
– Árduo. Como não tínhamos energia, os próprios governos da época – caso de Celso Ramos, que apoiou muito a formação de cooperativas – tinham um só objetivo: levar energia elétrica ao homem do campo e socializar estes serviços. A Cergral nasceu na década de 60 e, por 25 anos, a energia chegou com sucesso, mas sem o preocupação com melhorias e qualidade. O pensamento era a queda da energia. Deixar o consumidor sem luz era “proibido”. Não importava muito como isso seria feito.

Notisul – Em que condições você assumiu a Cergral em 1994?
Comelli
– Cheguei em 1994. A situação não era ruim, mas faltava investimento. E, como eletricitário, eu sabia de cor e salteado todas as dificuldades da cooperativa e as expectativas futuras do setor e iniciei um projeto de reformas. Quando retornei ao cargo, em 2000, já vim pensando na desburocratização do sistema elétrico nacional e nas dificuldades para fazer as reformas. Chegar até aqui foi um trabalho difícil, de muita persistência.

Notisul – Como ficou a cooperativa após a regulamentação da Aneel? Os associados continuam donos da empresa?
Comelli
– Sim, a diferença é que os associados têm este status de dono somente até o fim do contrato que foi assinado pela permissionária (no caso, a Cergral) com a União. Depois deste prazo, o patrimônio será do governo federal. Porém, durante o tempo em que este contrato vigorar, a União devolverá todo o patrimônio para os sócios em forma de desconto nas tarifas. A luta agora é para que este contrato seja por tempo indeterminado.

Notisul – Não ficou desvantajoso trabalhar no sistema de cooperativa desta forma?
Comelli
– Sim e não. A luta não terminou. Muita água vai passar por debaixo da ponte. O sistema de cooperativa, na maioria das vezes, é sempre o mais certo e seguro. No nosso caso, por exemplo, o sistema não é tributado. O consumidor é beneficiado porque não precisamos pagar o PIS e a Cofins. Estas duas taxas juntas já somam 7% no valor da energia.

Notisul – Então, a recente queda no preço da energia elétrica em praticamente todas as cooperativas é reflexo desta regulamentação?
Comelli
– Também. Na realidade, a regulamentação envolve uma série de restrições, digamos assim, impostas às cooperativas. A redução no valor é por conta da regulamentação, mas também porque deixamos de fornecer alguns serviços, antes inclusos na fatura. Com um exemplo, fica mais fácil: quando o consumidor pedia uma ligação de energia, fazíamos todo o serviço e o valor era diluído nas faturas. Agora, para prestarmos este mesmo serviço, o consumir precisa emitir uma autorização por escrito. A cobrança é feita em uma agência financeira (como um banco) e não mais paga na cooperativa.

Notisul – O senhor concorda com a regulamentação?
Comelli
– Estou contente, em partes, com este processo. Observo que há alguns ajustes que devemos fazer, especialmente no que diz respeito à cultura das pessoas. Hoje, ninguém vive se não souber o mínimo, inclusive sobre novas tecnologias. Tudo é muito dinâmico, é preciso investir mais neste mote. É o que começamos a fazer nos últimos três anos. Mesmo assim, há dificuldades. Não é fácil mandar Comelli ir fazer aulas de computação (risos). Imagine isso para um colaborar que está há anos na mesma função. Mas vamos superar este obstáculo também.

Notisul – Quando termina este processo de regulamentação das cooperativas?
Comelli
– Das 22 cooperativas do país, apenas 12 foram regulamentadas e já cobram as tarifas equalizadas pela Aneel. Na região, a cooperativa de Anitápolis, por exemplo, já está dentro das novas regras, como a de Gravatal. Em São Ludgero, na Cegero, o processo ainda não foi feito. A Aneel não encontrou parâmetros para regulamentar a Cegero. É uma exceção em Santa Catarina, onde pouquíssimas empresas consomem a maior quantidade de energia. A cooperativa consegue dar enormes benefícios aos consumidores. Diferente de nós e na Cerbranorte, de Braço do Norte, por exemplo. Uma tentativa do governo federal é a criação de empresas de referências para fazer a regulamentação individualmente em casos como o de São Ludgero.

Notisul – Fica claro que a regulamentação diminui os “poderes” das cooperativas. Como fazer frente a gigantes como a Celesc, em Santa Catarina, por exemplo?
Comelli
– Vamos continuar mostrando através de documentos, debates, análises técnicas que temos um espaço importante e não é igual à Celesc. Nós somos 22 cooperativas, somos a carne do pescoço. A Celesc é o filé mignon. Isso é simples se falarmos em números: a Celesc possui 50 consumidores por quilômetro de rede, nós temos oito usuários por quilômetro de rede. É lógico que nosso mercado é muito pior, nossa estrutura é menor e seremos engolidos pela burocracia. Ainda assim, temos um papel importante e fundamental no desenvolvimento da região onde atuamos. É este reconhecimento que queremos. Somos tão empresa quanto a Celesc, só que de porte menor.

Notisul – O senhor acaba de dizer que está em desvantagem. Qual a carta na manga para ficar mais competitivo?
Comelli
– Não vamos entregar os pontos. Somos pequenos hoje, mas temos oportunidade de ficarmos maiores. Como fazer isso? A resposta é a seguinte: de Tubarão até a região de Braço do Norte, são seis cooperativas. A sugestão é unir todas. Isto nos abriria possibilidades inimagináveis.

Notisul – Mas, se a solução parece ser tão simples, porque não foi colocada em prática ainda?
Comelli
– Não é tão simples. A maior dificuldade está nas questões políticas de cada município. Este obstáculo precisa ser superado. Quando e se um dia esta proposta começar a ser debatida, haverá dificuldade política. Mas ainda sou pelo velho ditado popular: quando não é possível pelo amor, faz-se com a dor.

Notisul – Quantos consumidores são atendidos pela cooperativa de Gravatal?
Comelli
– Desde 1961, quando a Cergral nasceu, conquistamos 6,070 associados. Mas, consumidores mesmos são 4,330. Os demais são sócios que saíram da cidade ou que faleceram.

Notisul – Quanto há de lucro e de despesas?
Comelli
– Nosso faturamento anual é R$ 5, 6 milhões. No ano passado, por exemplo, a sobra foi de R$ 207 mil. Este valor baixo tem uma explicação: não visamos lucro, por isso, não sobra muito em caixa. A meta é levar o benefício da energia elétrica, mas sem onerar absurdamente o bolso do nosso consumidor. Esta sobra anual fica no caixa da cooperativa e são os sócios que decidem, em uma assembleia geral, o que fazer com o recurso. Na maioria das vezes, é investido tudo na melhoria da rede.

Notisul – E a inadimplência? É como na Celesc, por exemplo?
Comelli
– A cultura do cooperativismo não é de colocar a faca no pescoço. Ao longo do tempo, cada empresa desta modalidade criou os seus próprios critérios de gerenciamento. Tínhamos um limite de dois meses de prazo para o pagamento da fatura de energia elétrica. Agora, com a regulamentação, o critério mudou. Hoje, o consumidor da Cergral e de qualquer outra cooperativa já regulamentada tem dez dias de prazo para pagar a fatura. Caso isso não ocorra, são 15 dias de tolerância. Passado este tempo, o consumidor é notificado sobre o possível corte de energia. Estas mudanças não são compreendidas pelos cooperados. Principalmente porque, antes, o cidadão tinha dois meses para se organizar financeiramente e quitar a dívida.

Notisul – A regulamentação continuará a permitir investimentos com recursos próprios, como ocorre hoje?
Comelli
– Aqui em Gravatal, quem fez a cooperativa crescer foi o dinheiro dos sócios. Nunca recebemos dinheiro do governo. E, se nunca veio, por que agora, com a regulamentação, teríamos que ceder tudo? Não é bem assim, chegar de uma hora para outra e impor condições fora da realidade. Vamos fazer o possível para continuar a crescer.

Notisul – Quais as necessidades da Cergral para o futuro?
Comelli
– Com o avanço tecnológico, não podemos mais nos permitir dormir de touca. Ou nos transformamos em uma empresa profissional e competitiva, ou seremos extintos do mercado. Para podermos continuar, precisamos avançar tecnológica e profissionalmente. Fazer com que nosso crescimento reflita no desenvolvimento do município como um todo. E, para que isto ocorra, há necessidade de recursos. Energia elétrica é algo que não tem fim e as necessidades mudam com constância. É preciso planejar a curto, médio e longo prazo. O desafio é grande, mas não impossível. Já passamos por coisas muito piores e somos capazes de superar mais essa.

Notisul – E qual o planejamento da cooperativa para este ano?
Comelli
– Desde 2000, trabalhamos na implementação de um projeto que diz respeito à qualidade da energia elétrica disponibilizada para nossos consumidores. Hoje, temos 90% de nossas redes já colocadas nas laterais das estradas, uma cobertura muito boa de iluminação pública, salvo alguns locais. Além disso, conseguimos garantir qualidade para nosso consumidor e estamos preocupados com o futuro. Os avanços tecnológicos foram muitos. É praticamente impossível desligarmos a energia durante o dia. Seja o consumidor em casa, sejamos nós para fazer alguma manutenção ou melhoria. O mundo não vive mais sem energia. É neste ponto que entra a competitividade e o profissionalismo. E somente conseguimos isso com consenso entre os sócios. O cooperativismo precisa ser visto neste momento como uma mola mestra para o desenvolvimento. Quando não existir mais esta visão, não haverá mais possibilidade de qualquer cooperativa existir.

Notisul – A sua diretoria é composta por vários representantes partidários. Isso facilita ou dificulta?
Comelli
– Aqui, praticamos a política cooperativista. É muito diferente da política partidária. Entendemos que, quanto mais há política partidária dentro das cooperativas, maiores são prejuízos. Em Gravatal, dentro da cooperativa, pratica-se o cooperativismo e eu já tive a oportunidade de dizer à ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) que não existe cooperativa do PMDB, PSDB, PP, PT e qualquer outro partido. Existem cooperativas de pessoas.

Notisul – Por falar em política, o senhor já foi candidato a vereador, a vice e ainda a prefeito. Como foi esta experiência?
Comelli
– Em 1988, fui candidato a vereador, disputei vaga com 59 candidatos. Fiz 354 votos, algo expressivo para a época. Cheguei a pensar em desistir do cargo. Fiquei afastado por seis meses, mas resolvi terminar o mandato. Em 1992, disputei, pelo Partido Progressista (PP), a eleição como candidato a prefeito e não me elegi. Também fui o candidato a vice do Edivam Bez de Oliveira (PMDB), em 1996. Perdemos nas urnas naquele ano. Depois, nunca mais concorri para nada, somente na cooperativa. O meio político é complicado de lidar. Há questões que travam o desenvolvimento saudável da cidade. É triste, mas uma grande verdade.