Engenheiro químico, nascido em Montevidéu, capital do Uruguai, Vladilen Villar veio para Tubarão para montar alguns cursos de áreas afins na Unisul e ficou. Pós-graduado, mestre e doutor na área de engenharia de produção, “sobrou” para ele a tarefa de executar o projeto de criação da ONG Vias do Sul, cuja oficialização foi feita na quinta-feira à noite, na sede da Amurel, em Tubarão. Hoje, são 45 pessoas envolvidas. E eles pretendem captanear mais cidadãos. Integrado ao movimento por acreditar que vale a pena, Villar é enfático em destacar que a Vias do Sul não se trata de uma ação isolada, e sim uma iniciativa a ser fomentada em todo o sul. “Podemos ser tubaronenses hoje, mas queremos ser todo o sul catarinense amanhã. Não há sentido olharmos apenas nosso umbigo. Por isso que falamos em sociedade civil organizada. Sociedade somos todos nós. Isso é união”, reforça.

Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Como surgiu a Vias do Sul?
Villar –
De uma reunião de amigos. Estávamos em um encontro (Villar e os advogados Charles Antônio Simões e Raphael Bianchini). Para falar a verdade, estávamos em uma feijoada. Então, chegaram outros amigos, entre eles o médico Laurence de Lucas Dias. Ele estava indignadíssimo porque tinha demorado mais de duas horas para vir de Laguna a Tubarão.

Notisul – Ah, o básico…
Villar –
Ah, sim. Até aí estava chovendo no molhado. Mas é aquela coisa: quando se está comendo e bebendo, os ânimos se exaltam, então, no meio da conversa, já estávamos botando pneus no meio da estrada para atear fogo e parar a rodovia em plena sexta-feira de Carnaval. Terminou mais ou menos nisso. Tinha outros planos mirabolantes, este era o menos pior (risos)
Notisul – Nossa, disso vocês desistiram né!?
Villar – Sim. No outro dia, pensando melhor, um ligou para o outro e chegamos à conclusão de que faríamos um baita papelão desnecessário. Não haveria sentido em uma asneira deste tamanho. Então, marcamos outra reunião – sem comes e bebes (risos) – e decidimos realmente fazer algo. Foi assim que pensamos em criar um movimento para agregar o maior número possível de cidadãos. Mas foi quando nos demos conta de que o problema não é nosso, não é de Tubarão, e sim do sul catarinense. Então, resolvemos nos organizar melhor e fazer algo mais abrangente.

Notisul – Como está o trabalho agora?
Villar –
Focado na primeira ação que achamos pertinentes em questão de logística: a BR-101. Criamos a campanha ‘Vamos duplicar a pressão’. Pegamos o relatório da Federação das Indústrias dos Estado de Santa Catarina (Fiesc), que traça para 2015 o término do drama, e agora vamos à luta, para que neste miserável prazo de 2015 tenhamos, de fato, a rodovia pronta.

Notisul – Qual a sua função no grupo?
Villar –
Como atuou muito na área de projetos, em virtude de algumas especializações na área de engenharia de produção, sobrou para mim a execução do projeto da Vias do Sul. Mas não pretende nada desse negócio de diretoria. Quero, claro, fazer parte do grupo, mas esta é uma tarefa para os mais novos.

Notisul – Vocês já articularam a participação de outras entidades no grupo?
Villar –
Ontem (terça-feira), o prefeito Manoel Bertoncini nos recebeu, juntamente com a Associação Empresarial de Tubarão, Câmara de Dirigentes Lojistas, câmara de vereadores, para conhecer nossas ideias. Todos se colocaram à disposição, o que nos deixa maravilhados, mas não queremos a identidade de ninguém. O que queremos é algo novo, mas isso não significa que iremos prescindir do apoio dos outros. Pelo contrário. Só não queremos vínculos com entidades, e sim com os líderes destas instituições.

Notisul – A Vias do Sul nasce com uma proposta de atacar a logística, a falta dela no sul de Santa Catarina… Como isso será feito?
Villar –
Está corretíssimo. Quando pensamos em articular a ONG, percebemos logo que não haveria muito sentido criá-la apenas para pressionar à finalização da BR-101. Então, rapidamente ampliamos o leque, porque há muito a ser feito. Queremos pensar nos aspectos do Porto de Imbituba, do Aeroporto Regional Sul, em Jaguaruna, a comunicação das BRs, a junção do sistema de transporte de grãos do Rio Grande do Sul, para que escoe por Imbituba, a Ferrovia Litorânea e até, quem sabe, desenterrar um projeto de 1879, que prevê a ligação de Laguna a Porto Alegre pelo sistema lagunar. É uma dissertação de mestrado de um aluno de geografia da Unesc. São mais ou menos 30 quilômetros de canais que fariam esta ligação, algo que já existe na Europa e funciona muito bem para o transporte de cargas menores, como grãos, por exemplo.

Notisul – Opa, aí esbarra no lobby gigantesco em torno do segmento rodoviário.
Villar –
Nem lembra. Há interesses de grandes empresas em jogo, mas de qualquer maneira é preciso mostrar as possibilidades, porque o Brasil não poderá continuar, por muito mais tempo, focado apenas no transporte rodoviário. Isto se torna impossível para qualquer país. Tirar este projeto (da ligação lagunar) ainda é um devaneio, eu sei, mas é possível e as pessoas precisam, pelo menos, saber disso.

Notisul – E esta campanha em torno da duplicação da BR-101, como será feita?
Villar –
Como planejamento, o trecho sul é maravilhoso. Tanto que o nosso projeto é copiado na BR-101 nordeste. O problema é que lá avança e nós não saímos do buraco. Em um primeiro momento, pensamos em fazer outdoors e panfletagem nos momentos em que a rodovia estiver parada. Mas esta planfletagem não é somente para inflar a ira de quem fica horas na rodovia, porque o cara fica irado mesmo, mas também educar. Colocamos na nossa cabeça que, se algum dia tivermos que paralisar alguma coisa, o melhor lugar para isso é o eixo monumental em Brasília. Não é aqui. Não adianta fecharmos a rodovia porque só iremos prejudicar a nós mesmos.

Notisul – Existem outras ações efetivas?
Villar –
Sim, certamente existirão ações judiciais para chamar os responsáveis a dar explicações. Não é algo a ser feito por agora, mas temos sim esta intenção. Por ora, queremos buscar a população, queremos a chamada pressão popular. A ideia é criar uma rede para isso, como se fosse a internet. Obviamente, também vamos inflar a rede mundial de computadores para captanear o máximo de cidadãos a lutarem pela mesma causa.

Notisul – Qual a segunda ação da entidade, após a BR-101?
Villar –
Isto é algo que ainda não está deliberado. Quando optamos pela BR-101, foi porque se trata de uma causa imediata. Não quer dizer que os outros projetos logísticos do sul não são melhores ou piores. Afinal, precisamos de tudo. Mas a BR-101 ceifa vidas todos os dias. Não podemos deixar assim, fechar os olhos. Por isso que não queremos nenhum tipo de ligação. A Vias do Sul pode ter nascido em Tubarão, mas queremos representar o sul.

"Não somos trogloditas, nós nos tornamos trogloditas à medida que não conseguimos enfrentar situações como ficar anos à espera de uma rodovia, e horas para andar pouco mais de 20 quilômetros na BR-101. Estamos nos tornando agressivos, fascínoras, porque o ódio de estar ali toma qualquer homem".