A artista plástica Nádya Niehues Becker, 44 anos, é natural de Braço do Norte, onde reside. Iniciou na pintura em outubro de 1997 e tem formação em pedagogia, psicologia e pós-graduação em história da arte. Possui formação em terapias cognitivas e neuropsicologia. Com mais de mil obras, participou de vários eventos, entre exposições individuais, coletivas e itinerantes no Brasil e no exterior. Sua mais recente conquista foi o Prêmio Interações Estéticas 2010 – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, concedido pelo Ministério da Cultura e Funarte – Fundação Nacional das Artes.
 
 
Mirna Graciela
Braço do Norte
 
Notisul – A arte surgiu em sua vida de que forma?
Nádya – Comecei a pintar quando eu tinha 29 anos, logo que meu filho nasceu. Digo sempre que, com a vinda dele, nasci para a arte. Os dois mudaram minha vida, a transformaram completamente. Na verdade, comecei por acaso, sempre fui habilidosa desde menina para esta área, mas nunca imaginei e acreditei que pudesse ter isso como trabalho. Quando meu filho nasceu, comecei a pintar, até foi uma sugestão da minha mãe. Então, depois de uns seis meses, um amigo meu, o artista plástico Hélio Holden, de Braço do Norte, me convidou para participar de uma exposição. E neste evento fui considerada revelação, e não parei mais. 
 
Notisul – Como defines o teu estilo?
Nádya – Se for para dar um nome ao meu trabalho, considero contemporâneo porque consigo unir a tradição com a modernidade. Mas, se for usar em termos de nomes de estilo, é o figurativo, o acadêmico, o surrealismo. Uso todas estas linguagens, o meu jeito funde tudo isto porque envolve muitas coisas.
 
Notisul – Uma pessoa que lida com a arte nasce com o dom ou pode adquirir ao longo da vida?   
Nádya – Acho que todos podem produzir arte. Claro que exige disciplina, dedicação, como em qualquer área tem que existir este empenho. Mas não tenho dúvidas de que se a pessoa tem o dom, a vocação, tudo flui diferente. Algumas podem ter mais dificuldade de coordenação, por exemplo, de se liberar criativamente. Sempre digo que, se eu ajudar a pessoa a tirar o medo de se expressar, já dei minha contribuição, porque as técnicas ela vai buscar. A gente veio para este mundo com alguma missão e, quando conseguimos aperfeiçoar nossos dons, acho que é este o caminho, é para isso que viemos. E tenho esta sensação muito forte. Tenho um trabalho lindo ainda pela frente. Já fiz muitas coisas legais, sei disto pela resposta das pessoas.
 
Notisul – Que obra destacarias por ter um grande significado, que te marcou?
Nádya – Na verdade, tive várias que para mim foram grandes e as transformações que me geraram. Minha primeira obra, que foi sobre Braço do Norte, foi minha inspiração e o resultado me surpreendeu. Então, descobri que levava jeito. Daí, desejei me projetar. Na celebração dos 500 anos do Brasil, pensei: assim como mostrei as riquezas de minha cidade, posso fazer o mesmo com nosso país. Procurei o Centro Integrado de Artes da Unisul, apresentei um projeto e foi aprovado. Em 1999, me dediquei sete meses para pesquisas e o mesmo período para a pintura. E me indagava: para onde levar este trabalho? O lugar mais sugestivo era Brasília. Ano passado, inscrevi o projeto e fui selecionada entre os seis artistas brasileiros para expor no congresso nacional. Em setembro, estive lá e foi um presente enorme. A resposta das pessoas foi linda. Levei 29 obras, quadros de todos os nossos estados. Simultaneamente, tinham outras exposições muito importantes, como obras de Portinari, Victor Meirelles, artistas que admiro muito, foi uma realização intensa. Outro trabalho muito importante foram os murais que pintei na igreja de Braço do Norte. Foi um desafio enorme dentro de mim, o fato de deixar um trabalho registrado por muito tempo simbolizou a superação de muitas coisas na minha vida.  
 
Notisul – E as suas viagens aos Estados Unidos, como foram?
Nádya – Eu gostaria de enfatizar a importância dos companheiros das Américas na minha vida. É uma ONG americana de voluntários que desenvolvem projetos visando qualidade de vida. É um intercâmbio cultural. Participei de três deles. No primeiro, fui escolhida, em 2006, entre 11 artistas catarinenses para uma exposição itinerante. Não fui, mas meus trabalhos percorreram várias cidades do estado da Virgínia. Depois, lançaram um projeto de artistas em residência. Um catarinense seria escolhido para desenvolver um projeto cultural lá e um viria para cá. Fui novamente agraciada, isto em 2009, e apresentei o Brasil 500 anos em três cidades da Virgínia, em Richmond, Galax e Hampton. A resposta que tive sobre meu trabalho foi fantástica. No ano passado, lançaram outro para pintura em mural. Eu me inscrevi para acolher um projeto de lá e veio um pintor americano chamado Ed Trask produzir um mural em Braço do Norte, onde pintamos juntos um palco ao lado da Igreja Matriz. Este ano, um artista catarinense seria escolhido e eu fui a selecionada para pintar dois murais, em um Centro Histórico de Richmond. Eu não sabia o que faria de concreto na obra. Foi quando tive um sonho, dois meses antes de ir, em outubro. Havia um detalhe neste sonho que tinha a ver com uma história local. Eu não conseguia lembrá-lo claramente, mas fui com as imagens dele sem saber até que ponto as usaria. Quando sentamos, eu e Ed, para ver as questões que seriam trabalhadas e ele me apresentou uma temática, tinha tudo a ver com meu sonho.
 
Notisul – Como assim? A proposta era realmente parecida com o que sonhaste?
Nádya – Sim, eles ficaram tão impressionados e disseram que no meu sonho tinha muitas informações e eu teria que reduzi-las. Era uma situação que eu precisaria colocar amor para se ter paz e chegar em uma luz gigante que no meu sonho aparecia em uma mão. A temática local é que em Richmond, em 1925, um trem passou em um túnel e ficou soterrado com um colapso de terra. Dentro, havia brancos e negros, em uma época em que existia uma oposição muito grande entre as duas raças. Com o acidente, eles uniram-se para salvar vidas, mas não conseguiram resgatar ninguém, somente o maquinista dias depois. A ideia de registrar a pintura deste trem e a imagem do maquinista é de as pessoas terem a consciência do que ocorreu. O local onde foi feita a obra fica a uma quadra do túnel. Então, pintei uma mão branca gigante entrando na cena e uma mão negra junto. As duas juntas significam a paz, que era o meu sonho. Tatuei na ponta dos dedos, na mão branca, um coração negro, e na mão negra um coração branco com luzinhas saindo e coloquei uma luz gigante saindo destas mãos. Quando eu pintei a mão negra, as pessoas do outro lado da rua vinham e se manifestavam de que aquele era o caminho. Foi muito comentado, e chamou a atenção da imprensa. O Ed pintou o trem e o maquinista. Ficou lindo! É um mural de 15 metros por oito de altura.          
 
Notisul – Por que foste buscar formação em terapias cognitivas e neuropsicologia clínica? Qual a relação com a arte?
Nádya – Porque a pessoa que se envolve com arte e saúde tem muitos ganhos. Por exemplo, em uma criança muita coisa pode ser trabalhada, como coordenação e várias habilidades. No adulto, tem a questão da autoestima. Os benefícios da arte são provados cientificamente. Existe uma área muito forte que é a de reabilitação em neuropsicologia, onde pessoas que têm AVC ou outra situação tu podes estimular, em termos cerebrais, os novos caminhos neurais. Então, fui buscar estas formações para me dar suporte. Uma pessoa pode me procurar para ter aulas de arte, mas se ela está ansiosa e pede uma orientação, todo este conhecimento vem junto. 
     
Notisul – Qual a influência que as áreas da pedagogia e psicologia têm sobre o seu papel como artista plástica?
Nádya – Na própria psicologia, em cada caso temos que fazer uma investigação. Não acredito que eu faça isso porque fiz psicologia ou pedagogia. Mas, nos meus trabalhos de arte, não todos, mas em muitos, primeiro faço toda uma investigação. Se eu for trabalhar com uma empresa, vou pesquisar a sua história, os pontos principais, os focos, qual a intenção daquela obra, o que ela quer tocar. Diante de todas estas informações é que vou fazer a minha produção artística e dar o meu olhar. Isto também vale para uma história pessoal. Em uma decoração de uma casa, por exemplo, gosto de ir ao local e sentir sua energia, usar técnicas de harmonização. Enfim, são áreas interligadas.
 
Notisul – O que as pessoas encontram no Narte Ateliê?
Nádya – No meu ateliê, além das minhas pinturas, existem diversos trabalhos personalizados, como caixas, artesanato local, painéis. Inclusive, tem um com fotos e pintura que toca todas as pessoas que recebem, entre tantos outros. Também temos aulas de violão e várias atividades, como o curso de pintura. Ainda tem os cursos e as vivências para trabalhar o feminino e o casal. A gente trabalha bastante o psicológico.
 
Notisul – Como funcionam, na prática, estas vivências?
Nádya – O convite nestas vivências, workshops, cursos e formações é buscar o autoconhecimento, o que nos faz pulsar em relação à vida, o que nos motiva, permitir o sorrir do nosso coração. É quando aprendemos a acolher as diferenças, aceitar o possível e seguir adiante. Aprendemos a revelar quem somos, a liberar o que não nos pertence, a encontrar a ordem para que o amor possa fluir e nossas relações possam ser inteiras. Quanto ao feminino, a mulher hoje tira tempo para tudo, menos para olhar para si. Ela é sagrada, mística, revela os caminhos do sagrado, do amor, da vida. Seus dons de delicadeza, sua força guerreira, seus talentos e capacidade de amar diante da adversidade e curar e cicatrizar as dores da alma. Para eternizar este momento de autoconhecimento, desenvolvo as pinturas que batizei de “deusas”. É opcional após as entrevistas e vivências a mulher ser pintada de acordo com o perfil de sua deusa. 
 
Notisul – A capa da agenda solidária de 2013 do Notisul, edição de Braço do Norte, ganhou uma ilustração feita por você. Qual foi a inspiração?
Nádya – Olhando todas as riquezas de nossa cidade, mostrei as potencialidades econômicas e turísticas do município. Talvez a maioria das pessoas não se dá conta de tudo que pode ser feito. Existem muitas mães que produzem artesanato, grupos de teatro, de música, gaiteiros, o coral, o setor metal-mecânico, o turismo religioso, e assim vai. É fato de que muitos lugares possuem estas riquezas e não são mostradas.
 
Nádya por Nádya
Deus – Minha luz maior.
Família – Um dos pilares da minha vida.
Trabalho – É realização.
Passado – Tudo está em um bom lugar.
Presente – Onde faço tudo acontecer.
Futuro – Eu chego lá, mas olhando para meu presente.
 
“Ao longo da minha vida, fui me questionando sobre o sentido da espiritualidade. Eu preciso olhar para isso para dar um bom lugar a minha sensibilidade. É importante, me faz bem. Acredito que a espiritualidade não está vinculada apenas à religiosidade. Quando cuidamos dos nossos valores, virtudes, da nossa conexão com o universo, com tudo e todos ao nosso redor, estamos cultivando nossa espiritualidade. Há muitas coisas simples no nosso dia a dia que podemos fazer, cuidar e regar para nos sentirmos ainda mais fortalecidos neste aspecto. Por exemplo: nosso autocuidado, autorrespeito, como decidimos nos posicionar diante de cada dia e situação. Com gratidão? Esta atitude faz toda a diferença. Somos 100% responsáveis por nossas escolhas”.
 
"Acredito que cada artista tem o 
seu processo criativo. A arte me 
permite ver a vida com mais 
brilho, amor e cor".
 
"A coleção Brasil 
500 anos me 
projetou em 
vários estados”.