Guilherme Junkes Herdt tem 30 anos e é engenheiro ambiental formado pela Unesc, de Criciúma, com especialização em gestão ambiental, pela Fucap, de Capivari de Baixo. Desde 2009, está no Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão. No ano passado assumiu a função de consultor ambiental, contratado pelo estado, por meio do Programa SC Rural.

Rodrigo Speck
Tubarão

Notisul – Como analista ambiental, qual avaliação você faz da atual situação do Rio Tubarão? 
Guilherme Herdt –
A situação é muito preocupante. A atividade de carvão vem sendo executada desde o início do século passado na região. Esse recurso era explorado de maneira muito extensiva. As empresas retiravam o carvão e o local era deixado de qualquer maneira. Então, a água entrava em contato com esse rejeito. Mas, além da extração mineral, outras atividades são potencialmente poluidoras como a rizicultura e a suinocultura. E tem ainda a falta de esgotamento sanitário. Hoje é muito esgoto jogado diariamente no manancial. Se não houver um cuidado adequado, a poluição só aumentará.

Notisul – Mesmo com tanta poluição, ainda é possível recuperar o rio?
Guilherme –
Acredito que é possível sim, pois existem diferentes maneiras de se recuperar o passivo ambiental, não somente do carvão, mas também de outras atividades que são desenvolvidas na bacia hidrográfica do Rio Tubarão e no complexo lagunar. Acho que algumas coisas poderiam melhorar a curto prazo, principalmente com a implantação da coleta e tratamento de esgoto. Mas boa parte do passivo só seria limpa a longo prazo, afinal, fechar as bocas de mina não seria algo fácil. Porque, depois de todas catalogadas, ainda seria complicado lacrar cada uma delas. São mais de 200 na região de Tubarão e as bacias hidrográficas vizinhas têm mais bocas de mina que a nossa área. Mas hoje já se pensa a atividade com mais respeito com as questões ambientais. Isso já é um avanço.

Notisul – O esgoto sanitário depositado na bacia hidrográfica é um poluente tão agressivo quanto o carvão?
Guilherme –
Segundo o IBGE, os moradores que jogam esgoto nessa bacia hidrográfica chegam a 400 mil pessoas. Vinte e cinco por cento estão localizados em Tubarão. Tem ainda a população flutuante, do shopping, dos hospitais e das universidades. Na Cidade Azul não existe coleta e nem tratamento de esgoto. Na região, uma parcela de Gravatal trata o esgoto. São Ludgero e Orleans também já estão com o processo bem avançado. Nos outros municípios não existe coleta, nem tratamento adequado. Lauro Müller, Braço do Norte e Laguna iniciaram os trabalhos. Já em Tubarão, existe um levantamento que irá verificar o nivelamento do terreno onde serão implantadas as estações de tratamento.

Notisul – É possível estimar um prazo para que o rio fique limpo?
Guilherme –
É muito difícil, são muitas atividades, quando termina uma começa outra. E o tratamento de esgoto é um processo caro, porque precisa enterrar canos na bacia inteira, principalmente na área urbana. Em Tubarão, por exemplo, o projeto prevê oito frentes de trabalho. Isso significa oito ruas da cidade interditadas ao mesmo tempo. Em Laguna, onde não tem uma população muito grande, já foi complicado. Imagine o município de Tubarão, que tem um rio que o corta e pontes com sentido único. E mais, enquanto tem muita gente lutando para melhorar o meio ambiente no local, a população continua aumentando. 

Notisul – O que ocorreu em Lauro Müller foi um descuido ou um crime que poderia ser evitado?
Guilherme –
A empresa é cobrada para que tenha a sua atividade produtiva de acordo com as normas e as leis ambientais. O que aconteceu foi uma fatalidade, um acidente ambiental. Mas, logo que a empresa verificou o dano, os gestores tentaram estancar o problema o mais rápido possível. A questão é que determinadas atividades têm perigo. Carboníferas em geral são próximas de rios, já para lavar o material e não gastar com transporte até os lavatórios. No fim das contas, isso se torna uma bomba relógio prestes a explodir. Não é que a empresa seja irresponsável, isso poderia ocorrer com qualquer uma, inclusive com a melhor da região.

Notisul – Há punição para esse tipo de caso?
Guilherme –
Eles já receberam uma multa da regional da Fundação do Meio Ambiente (Fatma), de Criciúma. Afinal, o órgão ambiental de Tubarão não abrange a região de Orleans e Lauro Müller. Outros órgãos como o Ministério Público (MP), Instituto Geral de Perícias (IGP) e Polícia Ambiental também estiveram no local e notificaram a empresa. 

Notisul – Se chover nos próximos dias, há perigo desse material jogado no manancial se espalhar pela região e chegar até Laguna?
Guilherme –
Parte desse material ficou retida nas rochas dos rios Rocinha e Tubarão na região de Lauro Müller. E, na análise que fizemos, percebemos que, descendo o rio, o rejeito chegou ainda em Orleans e Pedras Grandes. Mas, desde que aconteceu o acidente ambiental, na noite de terça-feira passada, não choveu muito na região. Então, o rio só baixou de nível e o material que estava na água grudou nas pedras. Se chover muito, aí sim, o carvão poderá chegar a Tubarão e até Laguna, mas não uma mancha como observamos há dias. 

Notisul – Como será o trabalho de vocês na fiscalização deste problema?
Guilherme –
O Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e a Defesa Civil já criaram uma comissão para avaliar periodicamente os resultados das análises de água. Até o momento só existem resultados pouco abrangentes, mais simples. Mas, em poucos dias, os considerados complexos deverão ficar prontos e a empresa se comprometeu em disponibilizar para esta comissão. Na ação de limpeza do rio, os membros da comissão irão participar, fazendo a fiscalização de perto.

Guilherme por Guilherme
Deus
– O criador das coisas
Família – A base e suporte do ser
Passado – Experiência adquirida
Presente – Atuar corretamente
Futuro – Melhoria da qualidade de vida das pessoas

 

"Mesmo com o acidente ambiental em Lauro Müller, os técnicos nos garantiram que a água que sai das torneiras é própria para o consumo"