Starlink: será um vilão ou mocinho a partir do espaço?

Olhar para o céu e ver apenas as estrelas pode ser um privilegio que as próximas geração não mais terão. Pois na busca de uma internet disponível em qualquer parte do planeta, seja no centro de uma metrópole ou o meio da floresta amazônica, uma verdadeira constelação de satélites está sendo colocado em órbita.

Inclusive, aqui da Cidade Azul e muitas outras de Santa Catarina, foi possível ver um “cordão” de pontos luminosos no céu em meados de Fevereiro de 2020, que muitos até acreditaram ser “Ovnis”. Mas na verdade estes pontos luminosos nada mais eram do que satélites Starlink,  integrantes de um dos mais recentes projetos da empresa Americana SpaceX. E olha que esta é apenas uma das corporações privadas com projetos de explorar o espaço.

Este projeto da empresa SpaceX de Elon Musk pretende enviar para o espaço pelo menos 12 mil satélites, onde o propósito destes é prover internet de alta velocidade em todos “os cantos do planeta”.  Certamente algo desejado por todos. Mas quais serão as outras possíveis consequências deste projeto?

Elon Musk

Definir Elon Musk como um indivíduo excêntrico mas ao mesmo tempo visionário é desnecessário. Ainda que seja “odiado” por alguns, é venerado por outros. Ao mesmo tempo que se precipita no Twitter e promete mais do que pode entregar,  já fez mais pela humanidade do que a maioria dos políticos. Não apenas é visto como o “mocinho” que quer salvar a terra, como também é tido como o “vilão” que quer dominar o planeta. Antes de tudo, ele é um empreendedor que ainda irá nos surpreende muitas vezes.  Em resumo, é um indivíduo como poucos no planeta terra.

Inegavelmente já entrou para a história pelas empresas e projetos que já fundou e pelas outras que participou de uma forma ou outra. Nesta relação destacam-se o PayPal, Tesla Motors, SolarCity, projeto do Hyperloop, OpenAI (Pesquisa em Inteligência Artificial), dentre muitos outros.

Não só em terra firme, mas também no espaço, Elon Musk tem deixado sua marca. Uma outra empresa de destaque é a SpaceX (responsável pelo projeto projeto Starlink). Entre seus feitos está o Foguete Falcon 9, que ao contrário da maioria dos foguetes até então utilizados que são “descartáveis (a cada lançamento utiliza-se um novo foguete), o Falcon 9 é parcialmente reutilizável. Após a separação do segundo estágio já em órbita, o primeiro estágio é capaz de reentrar na atmosfera e pousar na vertical. Essa mesma empresa SpaceX já vendeu passagens turísicas para a lua e planeja a primeira viagem tripulada para Marte. Nesse ínterim nasce o projeto Starlink.

Projeto starlink

O projeto Starlink iniciou por volta de 2015 e já em 2018 enviou os primeiros satélites para o espaço. E incrivelmente em menos de dois anos já foram lançados mais algumas centenas deles. Só para 2020 espera-se um total de  24 missões com 60 satélites cada. Até o final de 2020 deverão estar em órbita mais de 1.500 satélites Starlink.

Embora o projeto todo anunciado estime lançar perto de 12.000 satélites até o final da década (número autorizado até o momento), a empresa busca a autorização enviar pelo menos mais 30.000. Ou seja, ao final do projeto se tudo sair conforme a empresa planeja, só ela poderá ter mais de 40.000 satélites em órbita. Pelo menos 10 vezes o número de equipamentos ativos atualmente.

Afim de  comparação, desde que o primeiro satélite foi posto em órbita em 1957 (Sputnik 1), estima-se que já foram enviados para  espaço perto de 10.000 novos equipamentos. Contudo, o total de objetos ainda funcionais ou mero lixo espacial (restos de missões ou satélites inativos ou danificados) já ultrapassa a casa de centena de milhar. Para quem tiver curiosidade o site http://stuffin.space/ fornece uma visão 3D da posição de cada um destes satélites ou fragmentos de lixo espacial. Ao mesmo tempo que é incrível é assustador.

O estágio atual do projeto é o dos lançamentos dos primeiros satélites Starlink. Cada foguete Falcon 9 da SpaceX leva um total de 60 novos satélites em casa missão (pesando aproximadamente 227 kg cada um) os quais são “liberados” a uma altitude aproximada de 400 km, para então utilizando propulsão própria irão se posicionar a uma distância de 550 km da terra para entrarem em operação.

Internet por Cabo ou Rádio?

A internet como conhecemos hoje é resultado de muitos saltos tecnológicos. Se hoje a maioria das residência em centros urbanos dispõem de conexões de alta velocidade e disponíveis 24/7, é graças as ligações por fibra óptica ou por cabo telefônicos com tecnologia ADSL. Mas para isso foi necessário anos de investimento em infraestrutura de cabeamento nas principais regiões do planeta. Em regiões mais afastadas por vezes a internet é disponibilizada por ondas de rádio, contudo geralmente com velocidades menores, maior instabilidade de conexão e maiores custos. Em contraste com este mundo dos “cabos”, o projeto Starlink prevê a distribuição de internet em todos os cantos do planeta sem cabos, e em todos os lugares, independente de ser um grande centro ou não.

Com o intuito de fornecer internet via satélites, desde a década de 1990 muitos outros projetos já foram propostos e até mesmo iniciados, mas todos naufragaram, ou melhor, vieram “céu abaixo”. O motivo do fracasso? Custa muito caro construir e especialmente muito mais caro ainda colocá-los em órbita, que dirá fazer isso com uma “constelação” inteira. Entretanto, os custos de lançamentos atuais foram muito reduzidos com o Falcon 9, bem como a própria empresa detentora dos foguetes é que esta por traz desta nova empreitada.

Como vai funcionar a internet Starlink?

Com no mínimo 800 satélites já será possível começar a ofertar o serviço nos Estados Unidos e Canada. Estes satélites formarão uma rede entre si e se comunicarão com os usuários na terra, os quais captarão o sinal por meio de uma antena com tamanho aproximado de uma pizza média.

Porque tantos satélites para cobertura de só um continente? E mais de 12.000 (podendo chegar a 42.000) para fazer a cobertura de todo o planeta terra?

Uma vez que os satélites Starlink ficarão posicionados em uma órbita baixa, por volta dos 550 km  de altitude em relação ao nível do mar, eles se movimentarão rapidamente em relação aos pontos fixos na superfície, e por este motivo, o tempo de visada de cada satélite por cada antena terrestre será de apenas alguns minutos (em outras palavras, o tempo que a antena “vê” o satélite). Ou seja, são necessários centenas de satélites para manter uma cobertura de sinal estável. Assim, quando um satélites estiver se afastando da antena terrestre, outro deverá estar entrando em sua área de cobertura.

Ainda que, desde a antena até o computador do usuário final ainda seja necessário um cabeamento mínimo, mesmo que seja até o roteador sem fim, o grande trunfo deste sistema é que da residência ou empresa do consumidor até servidor não serão mais necessários dezenas, talvez centenas ou até mesmo milhares de quilômetros de cabos e fibras. Imaginem como seria levar internet por fibra até os Andes, ou Antártica, ou qualquer outra região remota do planeta. Estar regiões hoje quando assistidas por este serviço, é somente com conexões via rádio e nem sempre baratas e acessíveis para grande maioria dos residentes destes lugares inóspitos.

Estes satélites estão equipados ainda com sistema anticolisão, e geo referenciamento pelas estrelas.

Será rentável?

Ainda não se tem notícias que indiquem quanto custará uma conexão ultra rápida via satélite. Mas já se sabe que a SpaceX pretende alcançar entre 3% a 5% do futuro mercado global das conexões com a rede mundial de computadores, com a disponibilização de conexões de até 1 gigabite de velocidade.  Esta “pequena” fatia global poderá render até U$30 bilhões de dólares anuais. Quase dez vezes mais do que a empresa arrecada com os lançamentos de foguetes com cargas para a NASA, além de outras agências espaciais e clientes privados.

Sem dúvida uma grande estratégia comercial que permitirá o financiamento das futuras viagens regulares à Lua e a Marte. Uma vez que só com os lançamentos de foguetes como ocorre hoje a empresa não teria recursos para estas empreitadas mais ousadas.

Starlink na Lua e em Marte?

Uma vez funcionando na Terra, analogamente também funcionará em outros lugares, como na Lua e em Marte. Inclusive poderá ser a solução para as comunicações quando da futura ocupação regular do nosso satélite natural.

Como a Lua tem um diâmetro 13,5 vezes menor do que o da terra, a sua curvatura acaba sendo muito mais acentuada. Além do que, por não ter atmosfera, as ondas de rádio não são refletidas de volta para a superfície e acabam se perdendo no espaço. Deste modo a solução das comunicações pode ser exatamente uma constelação de satélites.

Starlink contra a censura 

Em 2019 a internet foi cortada centenas de vezes em várias partes do planeta. Na maioria das vezes os responsáveis por esta interrupção foram os próprios governos. Índia, Irã, Iraque, Correia do Norte, Venezuela, entre muitos outros, se utilizam deste artifício para tentar interromper as comunicações locais em épocas de protestos, ou mesmo para censurar o que entra ou sai do pais via a rede mundial de computadores.

Com uma internet via satélite e cujo controle foge da mão de governantes que aplicam a censura ao povo, as informações poderão circular muito mais livremente em todo o planeta. Não mais dependendo da autorização de partido ou mandatário.  O risco neste caso é que o controle passa a ser centralizado em uma única empresa, esta privada.

Satélites Starlink e a astronomia

Assim sendo, internet vinda do espaço provida por uma constelação de satélites, parece ser a solução para muitos problemas de conexão existentes hoje. E de fato parece ser. Contudo, junto com a solução também são causados outros problemas que até então não existiam.

Em virtude dos satélites serem equipados com um grande painel solar, estas placas acabam refletindo uma grande quantidade de luz do sol para a terra que é captada pelos telescópios de observação espacial. Para a maioria das pessoas isso nada importa, porém para os astrônomos impacta diretamente nas pesquisas espaciais a partir da terra.

Isto acontece, pois, as observações geralmente são feitas com o obturador das câmeras aberto por segundos, minutos ou até mesmo por horas, e qualquer coisa que passar na frente será registrado como um “rastro”. Comprometendo completamente a qualidade da observação.

Starlink e o novo mundo do trabalho

Como já escrevemos em inúmeros textos ao longo dos últimos meses, tanto as profissões quanto o estilo de vida do ser humano estão sendo completamente impactadas pelo advento de novas tecnologias. E não será diferente com as novas constelações de satélites.  Neste caso específico a SpaceX tem o propósito de prover internet de alta velocidade nos “quatro cantos do planeta”. Mas também há outras organizações de olho para os céus.

Internet em todos os lugares e de alta velocidade!  Entre nos comentários e deixe sua opinião do quanto isso poderá acelerar a “revolução tecnológica” que já vivemos e o quanto poderá ser benéfico ou não.

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