Bertrand Russel (Dois conselhos importantes – YouTube): “Quando você está estudando um assunto, ou considerando alguma filosofia, pergunte a si, somente. Quais são os fatos? E qual é a verdade que os fatos revelam?

Nunca se deixe divergir pelo que você gostaria de acreditar, ou pelo que você acha que traria benefícios às crenças sociais se fosse acreditado. Olhe apenas e somente para quais são os fatos. Esse foi o conselho intelectual que eu gostaria de dar”.

Olhando com algum distanciamento os fatos brasileiros, o que está à vista dos olhos de querer ver? Penso que a estupidificação do senso crítico médio do País. Estamos numa desobrigação de compromisso cúmplice e emburrecedora.

Mesmo nossas formações intelectuais mais esclarecidas ficam se digladiando, desde sempre sem argumentos, sobre quem é mais ladrão do que quem. Pretextam com habilidade verbal vazia de conteúdo, sempre sob aplausos de interessados.

Chegamos ao triste ponto em que defensores de uma grei, já não podendo sustentar admiração por seus próceres, passam a regozijar-se com as acusações de rapacidade que recaem sobre adversários.

Ora, a Pátria está feita um sindicato de ladrões. Eis o fato. O que é havido por direita sempre nos roubou. O que é tido por esquerda veio e institucionalizou o roubo. Os antigos roubavam do Estado. Os novos organizaram o Estado para roubar.

O conselho de Russel solicita ao intelectual brasileiro que divirja do erro, venha ele de onde vier. A atividade intelectiva prescinde de agradar. O intelectual independente é o reduto ético possível nos momentos desavergonhados.

Costumo citar Umberto Eco. O pensador a quem o jornal La Repubblica, de Roma, definiu quando da sua morte como “o homem que sabia tudo” fustigava os silentes obsequiosos para as quais “a discordância é uma traição”.

O filósofo e romancista italiano defendia que a discordância política, a crítica ao poder da coloração que fosse, era, em vez de uma traição, o sal que impede que os valores da democracia e da liberdade se corrompam.

Sua obra sempre foi a busca por contradições, nas quais encontrava a liberdade. Para ele, o aplauso ao poder ou a falta de sentido crítico conduziam ao que chamava de “fascismo eterno” (http://migre.me/t5tv2).

Insisto e situo com Milton Santos: “O intelectual existe para criar o desconforto, é o seu papel. Não há nenhum país mais necessitado de verdadeiros intelectuais, no sentido que dei a esta palavra, do que o Brasil”.
Os intelectuais brasileiros ao se fazerem sequazes acríticos de líderes partidários restam obrigados em dívida moral para com o povo brasileiro. Há condescendência, preguiça, ou talvez seja mesmo dependência de verba pública.

Ceticismo metódico, dúvida do próprio juízo sobre os acontecimentos. Submissão só aos fatos, e quando eles se nos apresentarem incontestáveis. René Descartes, num esforçado discurso sobre o método para bem conduzir a razão.

A nossa intelligentsia abandonou o rigor. Desconsidera, talvez propositalmente, a complexidade das relações políticas do País, as quais incluem a corrupção como modo de intermediar interesses e poder.

Estamos um tanto complicados, tudo indica, e para além das diatribes entre coxinhas e mortadelas. Para permanecer com o marcador da Modernidade, Descartes: “Não existem métodos fáceis para resolver problemas complexos”.

Quer dizer: a “limpeza’’ que está sendo feita no mundo político é conveniente, mas não é solução. Se afasta maus governantes, não elege bons governos. Unicamente a vida política produzirá bons governantes.

Não gostamos de vida pública, entretanto. Temos desapreço por política. Que nos falta? Que se pode fazer? Evidentemente, não tenho a resposta. Suponho, todavia, que ela nascerá da relação entre os intelectuais e a política.

Intelectual orgânico. Gramsci o vinculava ao partido político, supondo “revolução”. Isso, se ainda cabe em algum lugar, por aqui, parece, já não tem cabimento. Todavia, a vinculação política do intelectual permanece um valor.

Retorno, contudo, a nós mesmos, ao mal dos nossos intelectuais: a tietagem. Tietar: “proceder como tiete em um ambiente; admirar incondicionalmente alguém, ou algo, dando disso mostras conspícuas” (Houaiss).

Nossos intelectuais nos devem o seu valor, o seu saber. Devem-nos seu engajamento na vida partidária, nos movimentos sociais. Eles saberiam contribuir com a formação de uma cultura menos arrivista do que tem sido a nossa.

O significado do intelectual engajado é o significado da crítica pública. O intelectual saberia ser o sujeito que adverte a Nação. A esta conta os intelectuais se deviriam obrigar. Claro, se puderem viver sem adular o poder.