Facebook, grupo Feminino, publicação de Alice Bianchini: “Metas para 2018: 1. Falar com mulheres sobre violência contra mulheres; 2. Falar com homens sobre violência contra mulheres; 3. Perceber micromachismos e buscar neutralizá-los.

Suponho que “falar com homens…” não será um discurso unilateral; não será um ditado prescritivo de comportamento. Não poderá ser: “Sou mulher, portanto presta atenção sobre o que te digo a partir do meu lugar de fala”.

Há feministas, contudo, que entendem que a causa é delas. Não é. A causa pertence à humanidade. Causas igualitárias são causas da humanidade. Sempre foi assim. Não por tradição, mas por conceito: causas humanas não possuem donos.

Compreendo a razão das aludidas feministas: os homens têm se apropriado das causas da humanidade para o próprio benefício. Mesmo a Revolução Francesa, o gesto mais libertário da História, traiu as mulheres e as deixou “de fora”.

Acontece que “sempre” houve homens que apoiaram as mulheres, e muitos lutaram por elas à revelia delas mesmas. A estes homens, como acontece a mim, interessa que haja igualdade de condições no mundo entre todos os humanos.

Aí, então, me dirão algumas mulheres que se reservaram uma minudência formal de procedimento: “Não digas que és feminista, mas que militas pró-feminismo”. Nessas coisas, costumo ficar com o dicionário.

Houaiss, feminismo: “doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade; teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos”. Muitos homens cabemos aqui.

Ainda Houaiss: “atividade organizada em favor dos direitos e interesses das mulheres; movimento que milita neste sentido”. Atividade organizada e movimento militante são protagonismo, seja, “pertencem” às mulheres.

Sinto-me à vontade para contribuir com “doutrina” ou “teoria”, quer dizer, com opinião, mas não me devo intrometer além de certa conta no ativismo organizado ou militante, cujo papel de destaque definitivamente é das mulheres.

Bem, opino: Houaiss não relacionou a sustentação da igualdade jurídica, talvez porque a Constituição já a tenha garantido. O Direito, contudo, ainda que declarado em forma de generalidade afirmativa de equivalência entre sexos, não se cumpre.

Então, a importância das normas discriminatórias afirmativas. Destaco essa questão porque ela foi trazida à tona no inteligente debate ocorrido, principalmente entre Juliana Goulart e Xixa Cor, nos comentários feitos na postagem referida.

Falando sobre feminicídio, diz Juliana: “Qualquer lei especial é um problema. A lei só expõe o feminismo como um movimento que busca privilégios para mulheres”. Divirjo. Não é privilégio, mas um tipo penal específico para um crime específico.

Ainda que mulheres matem homens (Juliana exibe números estupendos de crimes passionais cometidos por mulheres), não o fazem pela condição de sexo. Contudo há homens que matam mulheres tão só pela sua natureza sexual.

Ao argumento de que há um feminismo que busca igualdade civil e social entre sexos, Juliana contesta: “O feminismo luta para a desigualdade civil. As mulheres no Brasil e em países ocidentais já possuem todos os direitos que os homens têm”.

Prossegue: “O feminismo buscou criar, e conseguiu, privilégios legais para as mulheres. No Brasil, as mulheres possuem mais de duas dezenas de direitos que homens não têm. Isso também é verdade em [outros países]”.

Conclui: “A igualdade política e civil entre homens e mulheres é uma luta que vale a pena, porém o feminismo não luta pela igualdade entre homens e mulheres. Portanto, para que haja igualdade civil é necessário destruir o feminismo”.

E me provoca: “Então, Léo, me diga um direito que o homem tem e a mulher, não, no Brasil”. Rebato: “Muitos direitos declarados, feitos norma, têm a finalidade de buscar e garantir equivalências sociais que não existem”.

Concluo: “O fato de haver direitos (declarações gerais de igualdade) não estabelece a necessária correspondência ao fato (prática familiar, social, política ou econômica concreta) de haver igualdade praticada”.

Patrícia Burin diz melhor: “Juliana, na história dos direitos humanos em geral, a única forma pela qual se obteve igualdade real, isto é, igualdade na prática e não apenas no papel, foi mediante medidas legais de compensação”.

Nesse aspecto, o da discriminação afirmativa, a mim me parece que Juliana labora em equívoco. Contudo, não obstante ser contestada em outras manifestações suas noutras postagens, avalio que ela levanta problemas relevantes.

Feminismo é busca pela paridade de gêneros.  Juliana, contudo, aponta com correção que feministas controvertem depilação, uso de símbolos, exclusividade de fala etc. Eu acrescentaria: há feministas que “interditam” até posições sexuais.

Fátima Skoeder: “O feminismo luta por igualdade, liberdade e direitos. Deve atrair mulheres e homens que tenham senso em comum. Não é um clube para sócios”. Concordamos: certos controles são estranhos à pauta feminista.

Edito Fátima: “O feminismo pede respeito à autonomia da mulher. O princípio é que ela possa optar, não se sujeitar a algo imposto pela sociedade ou padrões religiosos”. Provoco: no feminismo não cabe monitoração nem de feministas.