Mil e quinhentos anos de domínio religioso cristão. Imobilidade intelectual, obstáculo à ciência, superstição como orientação da vida. Hierarquia social fundada na “vontade de deus”. A nobreza e clero no topo das relações de poder.

Os demais éramos nada, valíamos coisa nenhuma. Éramos plebe: classe social baixa. O plebeu era declarado e se reconhecia como destituído de distinção. Como vassalos, voltávamos a vida às homenagens ao suserano e à divindade.

Então, o Renascimento: no século XV, movimento intelectual que se espraia pela Europa. Preconizou a recuperação do pensamento greco-romano em contraposição à tradição medieval. Moveu artes, arquitetura, economia, política.

O Renascimento foi em grande parte reprimido pela Inquisição, aparelho jurídico católico justificado como controlador da “heresia”. Os inquisidores compunham um sistema de controle ideológico com poderes ilimitados.

Esses tribunais perduraram do século XII até o princípio do XIX. O Renascimento foi, pois, delimitado por um ambiente social em que se prendiam pessoas suspeitas de má católicas, torturando-as e assassinando-as com espetaculosidade.

Não obstante seus limites, a Renascença partejou o Iluminismo, movimento político-intelectual assinalado pela centralidade da ciência e da racionalidade. Primeiro a burguesia articulou-o, depois Napoleão o impôs à Europa.

O século XVIII deu partida à substituição da religião pela ciência, do arranjo social voltado à devoção a deus pela lógica da organização política, da indiferença à vida na Terra pela valorização da existência concreta do indivíduo.

Conceitos como Democracia, Estado, Direito, individualidade, cidadania passaram a fazer sentido. A vida em Sociedade já não seria a vontade da divindade (ou do clero), mas o resultado do Contrato Social efetivado politicamente.

As guerras napoleônicas foram saneadoras. Caiu Napoleão, ficou a laicidade. Nunca mais a Europa foi a mesma. Ocorre que a Península Ibérica, seja, Espanha e Portugal, jamais foi do interesse do Corso, salvo como geopolítica.

Os valores políticos prevalentes para espanhóis e portugueses seguiram torcidos por religiosidade, privilégios de nobreza, imobilidade social. Boa parte do pensado e praticado por aqui nos acontece por derivação dessa condição.

Senão, vejamos: estamos em fase de escolha dos gerentes do nosso Contrato Social. Se dermos crédito às mídias sociais, ficamos com a nítida impressão de que se deseja radical mudança nos quadros e formas de administrar o Brasil.

Mas, será que se não houver mudança na mentalidade do eleitor restará alteração nos quadros dirigentes do País, dado que os escolhidos decorrem diretamente do modo de pensar dos que têm direito a sufragar candidatos?

Eleitor é pobre e possui modestíssima escolaridade: “O extrato mais numeroso dos eleitores, que responde por 80% dos votantes, é composto de brasileiros que se situam entre a classe média baixa e os pobres.

Eles somam 93 milhões de pessoas [2002], um contingente maior que a maioria das democracias do mundo” (https://bit.ly/2LssfmS). Esses eleitores de modestas posses, educação e horizontes decidirão o destino comum da nação.

É grave: “Se o voto fosse facultativo no Brasil, os eleitores com idade entre 18 e 69 anos, que hoje são obrigados por lei a votar, se dividiram: uma metade se absteria e outra faria questão de votar” (https://bit.ly/2P5Yo5O).

Ademais, “o número de eleitores que não compareceram às urnas no segundo turno das eleições municipais [2016], somado aos votos brancos e nulos […] corresponde a 32,5% dos eleitores aptos a votar” (https://glo.bo/2eKocWm).

Tome-se em consideração que o voto é obrigatório, que da ausência imotivada do votante decorre pena e que, mais importante, os dados referem-se a pleitos locais, que implicam diretamente a vida do cidadão. É muita coisa.

A vida política que se volta ao Contrato Social nos interessa pouco; a ciência, ou a escolaridade, não é o nosso forte, a vida cívica não está no centro da preocupação do Brasileiro. A Idade Média ainda nos habita a imaginação.

“No Brasil, 79% da população afirma seguir uma religião, segundo pesquisa realizada em 65 países pela rede Worldwide Independente Network of Market Research (WIN), que no país teve parceria do instituto de pesquisa Ibope.

O índice representa oito em cada dez brasileiros e está acima da média da população mundial, que é de 63% de religiosos ou 6 em cada 10 pessoas, segundo a pesquisa” (https://glo.bo/2MVZTWY). Eis a base de nossos valores.

Supostamente por isso as pesquisas eleitorais indiquem a preferência, à esquerda, de um candidato que afirma que a cor da bandeira de seu partido é a do sangue de Jesus, e à direita, que declara deus acima de tudo.

A mentalidade da Idade Média confia o cotidiano à vontade divina: deus proverá. Para a racionalidade Iluminista, a humanidade terá o tanto que a humanidade providenciar. No nosso caso, que deus providencie um voto racional. Amém.