Otema, por sua relevância para o Estado Democrático de Direito, há que permanecer escorado pela indignação pública. Não se pode deixá-lo ao esquecimento como tantas ocorrências significantes da nossa História foram deixadas.

A execução de Marielle Franco inscreve-se no vulgar cotidiano político brasileiro como um encruzo de civilização com barbárie. Sua militância na vida pública estabelecia uma diferença conceitual em nossos modos de fazer política.

Era uma parlamentar municipal que, concordando-se ou não com suas ideias, fazia diferença. O esclarecimento de seu assassinato é um imperativo cívico que ultrapassa a fronteira da investigação policial: é uma questão de Estado.

Na sociedade civil, é inadmissível que o cadáver, a história, as posições ideológicas e a vida pública dessa mulher sejam reduzidos a insultos entre reacionários inescrupulosos e românticos sem inocência, aproveitadores de ocasião.

Marielle não foi morta por manter relacionamentos sorrateiros com bandidos (uma calúnia) nem porque era mulher, negra ou pobre (uma simploriedade). “Até” a Veja (21mar18) sabe que ela é “a primeira vítima política da barbárie”.

Trata-se de um “crime contra uma voz. Ela foi executada, e deixou uma indagação: a quem interessava seu assassinato?” (F. Molica, L Bustamante). É claro, pode-se suspeitar, mas não são sensatas inferências precipitadas.

Marcelo Freixo: “Quando a investigação for concluída, vamos entender quem fez e qual a motivação do crime. Antes disso, por favor, cale a boca. A velocidade da investigação não pode ter o tempo da nossa angústia” (Isto é, 28mar18).

“Marielle tinha uma atuação que apresentava perigo para determinados setores. Não se executa uma vereadora como ela sem que isso tenha relação com as denúncias que estava fazendo” (Tarcísio Motta, vereador, PSOL, Veja, 21mar18).

Bem, sabe-se exatamente de que denúncias fala o edil, elas estão nas mídias sociais legadas por Marielle. Não obstante, sem investigações institucionais, sem o exercício da legalidade pelas autoridades constituídas, nada prosperará.

Acontece que “o problema maior do Rio é a corrupção endêmica na administração. Você está com um problema que desmoralizou a tropa, tirou dinheiro dos serviços essenciais, tirou toda a confiança da população nas autoridades.

Terá que haver apuração da corrupção do escalão [da PM]. Não há como fugir disso. Se isso não for feito, e não for feito a contento, o problema da desconfiança da população em relação às autoridades continuará.

Se não puder confiar num policial que está trabalhando para você, acabou. É preciso controle permanente e rígido. Policial corrupto é muito pior que o bandido. Ele tem farda, tem a arma do governo e tem a corporação por trás.

Tem que descobrir quem é o corrupto, arrumar as provas, fazer a acusação, obter condenações. Essa investigação leva anos” (Henrique Geaquinto Herkenhoff, Valor, 09mar18, editado). Trata-se, pois, de mal crônico, não é uma crise.

Antes de qualquer coisa a ser feita, contudo – e “está feita” uma intervenção federal comandada por um General –, a questão da Polícia Militar, sem a qual nada acontece, e com a qual tudo pode acontecer, para o bem ou para o mal.

Os executores de Marielle não se preocuparam em disfarçar o crime. “Agiram explicitamente como quem quer mandar um recado. E não apenas para os defensores de direitos humanos, mas para o comando militar da intervenção.

O comando da operação enfrenta, no entanto, forte reação [inclusive negativa de bater continência a general, determinada por coronel comandante de batalhão]. Policiais têm-se rebelado contra ações que minam sua sociedade com o crime.

[A morte de Marielle, todavia, impõe-se moralmente à intervenção]. A ausência de uma apuração rigorosa do crime e dos acontecimentos denunciados pela vereadora do Psol evidenciará que o crime organizado continua a dar as cartas.

Essa trama resiste ao fim da impunidade e ameaça desmoralizar a mais ambiciosa operação doméstica das Forças Armadas” (Maria Cristina Fernandes, Valor, 16mar18, editado). Marielle, uma questão de Estado que estremece o País.