Não sei se algum dia o futebol teve a importância que os sistemas de comunicação lhe davam e dão. Suponho que só a ostentação ruidosa de rádios e televisões faziam e fazem o futebol ser a unanimidade nacional.

Aliás, o futebol nem se constitui exatamente num esporte que o brasileiro pratique. Os jogos são mais espetáculos midiáticos do que exercício esportivo. Futebol, já faz muito tempo, se o ouve ou se o vê; pouco se o joga.

Conforme estudo da Universidade de São Paulo, “A paixão dos brasileiros pelo futebol pode ser grande, mas o número de pessoas que faz do esporte uma atividade física caiu. De 2006 a 2012, o percentual foi de 9,1% para 7,2%”.

A caminhada (18%) e a musculação/ginástica (11,2%), segundo o texto, ultrapassaram o jogo de bola e são as atividades físicas mais praticadas pelos brasileiros em suas horas de folga (Hérika Dias, http://bit.do/em8bT).

Quanto à grande paixão dos brasileiros por futebol, não é o que se dessume dos dados trazidos pelo Datafolha (FSP, 12jun18,): “O desinteresse dos brasileiros com a Copa disparou às vésperas do início da disputa na Rússia.

Segundo pesquisa nacional, 53% dos brasileiros afirmam não ter nenhum interesse pelo Mundial. O desinteresse se destaca entre as mulheres, 61%. Apenas 18% dos entrevistados dizem ter grande interesse pela competição”.

Para reflexões pessoais, destaco uma especificação sobre o perfil dos entrevistados. Têm grande interesse na Copa, considerando-se a escolaridade: ensino fundamental, 24%; ensino médio, 18%; ensino superior, 10%.

Os dados gerais confirmam resultados de pesquisa anterior do mesmo instituto: “O número de brasileiros que dizem não ter interesse nenhum por futebol cresceu consideravelmente nos últimos oito anos.

Em pesquisa Datafolha (janeiro de 2018), 41% dos entrevistados disseram não ter interesse por futebol. O índice é dez pontos percentuais maior que o de pesquisa realizada em abril de 2010” (http://bit.do/em8hV).

O Brasil sempre foi mostrado como o “país do futebol”. Vendemos essa narrativa para nós mesmos e para o mundo. O mundo passou a nos ver dessa maneira; nós nos ufanávamos de ser considerados desse jeito.

O futebol nos foi consubstanciado como vínculo social. Ele irmanava o povo em torcidas. O pior de nossa sociedade era desconsiderado quando nos fazíamos melhores por nossos jogadores, sobretudo os de seleção.

Patriotas de Copa. As crônicas de Nelson Rodrigues copiladas n’A Pátria de Chuteiras. Para ele, o nosso “complexo de vira-latas” convertia-se em orgulho quando nosso futebol se destacava. Era o que nos referenciava.

Nelson, em sua coluna n’O Globo, À Sombra das Chuteiras Imortais, narrava com dramaturgia sobre futebol com nacionalismo e paixão. Não sei se acreditava nos seus escritos, ou se o seu gênio inventava a redação.

Sei que o dramaturgo é “culpado” por contribuir com essa nossa ideia de sermos o que há de melhor em futebol. Disso adveio, já não sei por culpa de quem, que ser bom em futebol é coisa importante para o destino nacional.

Não penso que seja. Embora reconheça que o futebol tenha cumprido o papel de consolidar uma identidade brasileira, essa identidade não se mantinha e não se mantém após os noventa minutos de uma partida.

Talvez o momento mais significativo dessa mistificação tenha sido a Copa de 1970: “De repente é aquela corrente pra frente Parece que todo o Brasil deu a mão Todos ligados na mesma emoção Tudo é um só coração!”.

Vivíamos um contraste. A euforia do futebol abafava os gritos dos porões da Ditadura. Garrastazu Médici de rádio de pilha nos estádios; seu governo autorizava a tortura, os assassinatos, o desaparecimento de presos políticos.

Não creio, mesmo assim, que futebol seja o “ópio do povo”, como diziam certos revolucionários. Futebol, afinal, é apenas um esporte. Nós só mistificamos a coisa. Não criamos desportistas, mas devotos da bola.

Parece que isso acabou. Nos demos conta que temos mais o que fazer. Entre outras tarefas, uma eleição. Em quem acreditar? Em quem sustente o cabimento do discurso. Não creia em quem diga que vai ser fácil sair do buraco.