Há quem deseje militares governando o Brasil. Não suponho que busquem alguém com carreira militar como candidato em eleições democráticas, submetido ao escrutínio popular, eleito legitimamente governante.

Nada disso. Essa turma não pensa em oferecer ideias à apreciação pública. Os solicitantes de “intervenção” não portam qualquer proposta para a “salvação nacional”. Eles são odientos e só ambicionam o império da odiosidade.

Não os suponho fundando um partido, o que seria legítimo. Sua vocação tende à vassalagem não à militância. Sem imaginação de vida pública, resumem-se à expectativa de um déspota truculento que se imponha por eles.

A aventura de uma intervenção militar, contudo, está mais para o devaneio de quem quer calar o “inimigo” do que para os militares propriamente ditos. O atropelo à vida democrática, aliás, carece de mais do que gosto por ditadura.

Para quem ignora, cabe dizer: os militares tomaram o poder em 1964 dentro de uma conjuntura que nem mesmo foi articulada por eles. As ditaduras que se instalaram por toda a América Latina foram um plano de ordem mundial.

Guerra Fria: entre 1945 e 1991 vivia-se uma situação de conflito político, espionagem, propaganda, controle econômico, tensão militar, guerra, guerrilhas e golpes, corrida armamentista, disputa esportiva, tecnológica, midiática.

O planeta era um tabuleiro de xadrez. Dois jogadores. As relações internacionais eram uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e União Soviética. Nós compúnhamos, necessariamente, o território físico e ideológico dos EUA.

Fomos incluídos entre os tantos países que sofreriam um golpe militar. Durante dois anos a “Revolução” de 1964 foi preparada. Articularam-se, dentro do país, os militares, a igreja católica, os empresários conservadores, a mídia.

Os Estados Unidos garantiram apoio de inteligência e logística. Montou-se a Operação Brother Sam. Em caso de reação de João Goulart, Leonel Brizola, militar ou popular, as forças armadas estadunidenses invadiriam o Brasil.

Não careceu de tanto. Goulart não quis reagir e provocar, em sua expressão, “um banho de sangue”. Brizola já não governava o Rio Grande do Sul, não contando com a Brigada. Os militares legalistas cederam. O povo, nada.

Perpetrada a derrubada do Governo, inclusive com declaração de vacância da Presidência da República pelo Congresso, o mais ficou fácil. A desculpa de reordenar o País e marcar logo eleições estendeu-se por duas décadas.

“Lenta gradual e segura”, foi a retirada dos militares. Saíram ilesos, apoiados em uma conciliação de saída por acordo de classes dirigentes. Anistiaram-se a si mesmos de seus crimes e garantiram que não haveria “revanchismo”.

Nem a Comissão da Verdade de lavra petista fez valer punição às barbaridades que apurou. Sabe-se quem torturou, quem assassinou, quem fez desaparecer prisioneiros. Sabe-se tudo o que bastaria saber. Vai-se fazer nada.

O País, inconformados alguns, eu entre eles, se apaziguou, ou foi declarado apaziguado. Os guerrilheiros que nos salvariam, ou nos alinhariam aos soviéticos, democraticamente souberam ganhar votos. A sobra civil da Ditadura sobreviveu.

Tenho ojeriza a qualquer forma de ditadura. Lamentei que brasileiros se tenham feito subservientes do imperialismo norte-americano. Não lamentaria menos se vivesse em qualquer lugar em que vingasse o militarismo soviético.

Felizmente, nossos males, que não são pequenos nem poucos, mas não são ditadura, hoje estão sob as contas de nossas instituições políticas e legais. Há gosto e contragosto com os fatos, mas elas desempenham a tarefa.
Agora, essa arruaça reacionária pedindo golpe das Forças Armadas. Deviam ignorar menos o contexto, inclusive a oportunidade de um golpe militar. Quem o articularia, quem o daria, quem o sustentaria? Sob que argumento?

Os católicos têm um papa que conviveu com a ditadura argentina e que não gostaria de repetir sua própria história; a mídia nacional não está propensa a tal peripécia; o empresariado não arriscaria seus negócios.

O povo não seguiria outra “marcha da família, com deus, pela liberdade”, os ricos não investiriam seu dinheiro, os governadores não emprestariam seu prestígio. A ONU não acataria. Nem os militares estão dispostos à coisa.

O último militar golpista (de esquerda?) aqui por perto foi o Chaves. Tudo o que os trânsfugas da vida democrática podem conseguir é um Chaves de direita. Se forem menos estúpidos, não arriscarão isso para o Brasil.