Fico enternecido. A notícia sobre a menina Gleici Damasceno alcança-me por meio de artigo de Eduardo Suplicy, o Dom Quixote do Brasil. Um Dom Quixote, quem sabe, que nem Cervantes imaginaria escrever.

Se Suplicy dedica-se a lavrar texto sobre o Big Brother Brasil, haverá de ser algo interessante de se ler. Dei-me o direito de reservar os devidos preconceitos para com o reality. No mais, tudo foi satisfação. Então, me aprofundei.

A menina do programa vulgar pensa. Sua vida não é vulgaridade. Filiada a partido político (PT), militante social, estuda psicologia, tem função pública (Secretaria de Juventude), preside Conselho Antirracismo, é palestrante.

Tem 23 anos, a mãe conta 39. Nasceu de uma adolescente. O pai foi assassinado quando ela tinha 21 anos. Deve ter marcado a dor da morte trágica, mas não fez falta financeira. Era a mãe que segurava as pontas da sobrevivência.

Baixada do Sobral, Rio Branco, Acre. Rua empoeirada, esburacada, enlameada. Pobreza, periferia. Casa desrebocada, cerca de sarrafo. Telha de fibrocimento, sem forro. Calor. No Norte, muito calor. Não tinha privacidade.

Dividia o quarto com o irmão, o guarda-roupas, com a família. Labuta: para a aula, caminhava 6 km, com fome. Quem conta estas coisas é Dona Vanúzia, a mãe. Mas deixa claro: “A gente não quer se vitimar de coitadinha, não”.

A mãe da menina e sua dignidade dizem que sempre foram assim: não eram de reclamar, de estar pedindo, fazendo-se de vítimas; sempre foram de trabalhar, de pagar as contas, de ir à luta (encurtador.com.br/jyDIN).

Os acreanos festejaram a vitória de Gleici Damasceno no BBB 18, a maior audiência em anos e recorde no Twitter. Uma menina que trabalha desde os 12 anos; a primeira entre 50 primos a chegar à universidade. Orgulho da família.

No programa, conforme li e ouvi, ela safou-se de situações difíceis, transmitiu confiança, expressou honestidade. Uma guerreira que escalou as durezas da vida sem concessões ao comodismo e sem tornar-se uma arrivista.

Ganhou respeito. Lido o Suplicy, fui em busca de mais. Tomei-me de admiração. Ela sabe de si: “A gente sempre teve invisibilidade, e de repente, vai a um programa”… e muda a programação de uma rede de TV importante.

Ativista social, fez filmes para plantar consciência, propunha a desapropriação de terrenos baldios para fazer praças de brincar. Fez coisas concretas para mudar o lugar onde ela morava (encurtador.com.br/bdqKW).

Não é demagoga, disse que vai mudar a própria vida se ganhar o prêmio, ao mesmo tempo afirmou que cuidaria do seu bairro e da sua cidade. Declarou que tem ideais para dizer ao mundo (encurtador.com.br/tuOSW).

Não me importa o partido. Isso é critério de cada um. Ela escolheu o PT. Importa-me que ela é política, filiada, militante. Está na peleia. Não se abstrai do mundo real para resolver a Sociedade nas comodidades da internet.

A fama do BBB levou-a a outros programas mais. A fama agora é dela. Nas tantas entrevistas, há sempre emoção. Não se deixou deslumbrar. Goza a felicidade. E não se descuidou de sair da “casa” dando recado político.

Um programa movido a bobagens tirou Gleici Damasceno da condição de invisível em que o Brasil a fez nascer, crescer, viver. Uma invisível, contudo, a considerar. Ela já se situou a ponto de a militante empolgar o momento.

Suponho que será candidata (que não se iniba em capitalizar a oportunidade), calculo que será eleita (o Acre sabe mais que eu), desejo que continue estudando (insolente, esta minha aspiração). O País carece de gente assim.

Essa boa sorte (ou desempenho) que lhe trouxe notoriedade e dinheiro pôs a menina na ribalta. Eis uma chance. De quando em vez o Brasil que não cuida de sua gente acaba tropeçando em gente que quer cuidar do Brasil.