Plebe: “a classe social mais baixa de um povo”. Plebeu: “de qualidade ordinária; destituído de distinção; reles” (Houaiss). Estúpido: ignorante; carente de inteligência, de discernimento. Contente: empolgado por sentimento de alegria.

Alguns espertos se souberam nomear nobres (que se distinguem por títulos, fidalguia, elevação). Os nobres inventaram um deus para plebeus estúpidos obedecer e se contentar; os nobres se proferiram eleitos para governar a terra.

Plebeu e nobre não são apenas vocábulos antônimos. Isso diz pouco. As condições de um e de outro no mundo são opositivas. Plebeu é vassalo do suserano; é-lhe devoto, rende-lhe preito e tributo. Plebeu se plebeiza.

Essas coisas deveriam estar, de fato e de gosto, nas prateleiras esquecidas da História. Nós brasileiros, sobretudo, deveríamos ver isso com a distância do tempo e com o orgulho de patriotas que se fizeram uma República.

Sim, somos uma República aos solavancos. Mas somos cidadãos com declaração constitucional de igualdade. Não reconhecemos distinção por nascimento. Creio que as pessoas não subjetivaram seu status político atual.

Talvez pela nossa exacerbada diferença de condição social (de custo de oportunidade: desigualdade de chance diante da vida), restemos equivocados e pensemos que a vida é mesmo assim: de algum modo restamos plebeus e nobres.

Questão de mentalidade. Por alguma (des)razão, estupidificadas multidões sobram em estúpido contentamento diante das notícias de que um príncipe casou-se com uma plebeia, especialmente com uma plebeia “mestiça”.

Uma comoção simplória (e racista) vê magnanimidade na “concessão” principesca. Como podem perdurar tais pensamentos? Pois perduram. Há anos, injuriado, escrevi “Cabeça de plebeu”, atinente ao casamento de Kate e Willian.

Dizia, consternado – o mesmo desconforto moral que me alcança hoje – que devia ser agradável pensar como plebeu: “o povo vulgar, a ninguenzada contente, ainda que cheia de motivos mais para sofrer do que para se contentar”.

Disse e mantenho: é singela a lógica plebeia: basta ser tolo, acreditar e se felicitar com tolices. E mantenho convicto: “O mundo não é justo. A culpa é dos plebeus. Os plebeus sustentam as coisas como foram e como são”.

Pois, senão: sem nenhuma importância para nossas vidas, casaram-se Meghan e Harry. Nossos contentes, assim como os contentes do mundo (bilhões), exultaram em fascinação. A “Casa de Windsor” capitalizou a empolgação.

Edito Nizan Guanaes: “Como pode algo acusado de velho e anacrônico, carregado de privilégios indefensáveis, mudar de imagem sem mudar de essência? Foi o que fez um grupo de protagonistas muito bem remunerados.

A família real usou o holofote global para levar ao mundo a mensagem fundamental de união e respeito às diferenças. Numa cerimônia com pompa e circunstância tivemos uma grande lição de como divulgar um reino e uma realeza.

O toque final foi majestoso: todos de pé entoando ‘God Save the Queen’. Depois, o radiante casal desfilou numa carruagem aberta, como nos contos de fada, sob os gritos histéricos dos súditos. Tivemos bilhões de tuítes e posts.

A cerimônia varreu as redes como um tsunami. O mundo não resolveu seus problemas de desigualdade depois do casamento. Mas ganhou mais um tijolo para construir a ponte entre as diferenças” (FSP, 22mai18).

Discordo da “ponte entre as diferenças”. Vejo empreitada publicitária. “Estamos testemunhando a vitória de uma inequívoca e persistente campanha de relações públicas e branding” (Bárbara Gancia, Estadão, 20mai18).

A comoção plebeia não faz conta, fica deslumbrada. Servidão voluntária (La Boétie). Sujeição oferecida. Uma indignidade. Uma miserável imaginação de plebeu que se felicita no arremedo. Então, imitação manifesta:

“Casamento real inspira tendências para cerimônias no Brasil. [Será] fácil encontrar nos comércios populares itens inspirados no casamento. Tudo o que a nova duquesa de Sussex usa se esgota nas lojas” (Dani Braga, FSP, 21mai18).