É muito interessante que vocês existam. Explico: a Ditadura de 1964 obteve bastante sucesso nos seus infestos propósitos. Já não falo de torturas, assassinatos, corrupção etc, coisas tão sabidas. Refiro os males políticos.

O mal mais bem acabado dos milicos foi o político. Ao extinguir os partidos que tinham raízes históricas, dizimou com situações ideológicas; ao perseguir, cassar, prender ou banir seus líderes, destruiu porta-vozes de ideias.

A consequência da supressão dos debates de posições foi a indiferença generalizada. Os que cresceram sob o silêncio imposto à nação não tiveram formação cívica, não tomaram, pois, opinião diante de alternativas possíveis.

A indiferença diante da política cresceu e converteu-se em asco. Com razão, talvez, o asco, porque o mundo político ficou horrível. Esse o “sucesso” dos ditadores: a política de baixo nível, o nojo pelo baixo nível da política.

Um vocábulo me vem em bom auxílio: disteleologia: “crença na falta de propósito ou finalidade do universo” [político]; logo, “ausência de contribuição para o resultado final de alguma coisa” [na esfera política] (Houaiss).

Doutro modo: “política, estou fora”. Os militares conseguiram produzir falta de sentido na política, então, nela, ou por meio dela, restamos sem ter o que dizer de útil com o escopo de obter um resultado de interesse público.

Caros coxinhas, caros mortadelas, vocês mudaram isso. Surgiu uma indignação que implica posição e militância. Há equívocos na militância, tão substanciada por insultos, mas há o retorno à política, o que é bom.

A substituição de argumentos por insultos odientos haverá de decorrer da nossa rala prática democrática. Com o tempo certamente substituiremos os discursos impositivos de certezas por esforços de persuasão.
Democracia não é mais “metade mais um”. Já não cabe na construção da vida em comum o discurso formulado pelo marqueteiro do PT João Santana: “Nós contra eles”. Democracia pede formação de consensos amplos.

Argumentos persuasivos, portanto, antes de tudo. E mais algumas coisas. Primeiro, não cabe uma “apriorística” “pureza” dos “nossos”, como se os “nossos” tivessem licença para práticas que condenamos nos “outros”.

Nesta fazenda Brasil, os políticos (falo dos corruptos identificados) são todos iguais, não cabendo dizer que os “nossos” são mais iguais (ou mais perseguidos) do que os dos “outros”. Edito Carolina Bahia, DC, 14abr18:

“Operação abafa está em curso em Brasília, tomando conta dos tribunais superiores. No STF, PT, MDB e PSDB unem esforços para tentar acabar com a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância”.

Desencantamento: lidas as siglas (e há outras), caro coxinha, caro mortadela, torna-se compreensível que interessa a uma mancomunação de partidos (inclusive o de vocês) que a coisa sofra abafamento geral.

Segundo, o argumento de recorrência “genérico”. Edito a FSP (13abr18): “Pressionado por suspeitas envolvendo amigos e família, Temer tenta reagir e fala em perseguição”. Lula arguiu o mesmo, Aécio disse igual.

Temer, Lula e Aécio não são vítimas de mancomunações, salvo as feitas entre eles mesmos. Coxinhas e mortadelas não se podem olvidar que os ministros (presos) de Temer foram os mesmos de Lula e Dilma.

Tanto a Justiça está isenta de partidarismo que o “STJ nega pedido de suspensão da condenação de Azeredo (PSDB) a 20 anos e 10 meses, imposta pelo TJ-MG. Mídia e Judiciário em mancomunação contra o PSDB?

Detalhe: o “agente” do crime, Marcos Valério, “trabalhou” para o PSDB e para o PT, do mesmo modo, fazendo a mesma coisa. A mídia o denunciou em ambos os “trabalhos”, a Justiça o condenou pelas duas “obras” criminosas.

Terceiro, a questão institucional, o desprezo pelas instituições. Sem elas, contudo, não há organização social. Mortadelas propõem casuisticamente nova constituição; coxinhas nem têm quem proponha alguma coisa.

Os mortadelas elegeram o culto à personalidade (e o populismo de Lula). Os coxinhas são faltos de personalidade que lhes represente; perigosamente flertam com os preconceitos que Bolsonaro professa.

Caros coxinhas, caros mortadelas, enfim, meus respeitos ao combate que vocês travam, à “bola dividida” que vocês peleiam. Mas, meus caros, vocês estão “fascistas”, tomados de certezas sobre vocês e os “outros”.

Coxinhas e mortadelas, vocês estão mancomunados em ódio, promovendo a fascistização do necessário diálogo público sobre o Brasil. Vocês estão certos no lutar, mas não o estão na maneira de fazê-lo.