O deslocamento de mercadorias, as essenciais sobretudo, é questão de segurança nacional para qualquer país. É impensável a vida social urbanizada sem o devido abastecimento de combustível, comida, remédios etc.

Às maneiras de deslocar bens dá-se o nome de modal. Os modais de transporte são o ferroviário, o rodoviário, o hidroviário, o dutoviário e o aeroviário. A geografia do país indica o modal apropriado; o nosso seria o ferroviário.

Nesse aspecto, quem, no clima da “greve dos caminhoneiros”, clama pela “volta dos militares” como solução do problema, batalha em grave equívoco. Os militares são os responsáveis pelo desmonte das ferrovias no Brasil.

É verdade que Juscelino Kubitschek, no afã de modernizar a nação, incentivou a indústria automobilística, logo, as estradas. Mas JK não desatinou como os militares, que desmantelaram ferrovias em pleno funcionamento.

Resultado: o Brasil é o único país de dimensão continental que “escolheu” o modal de transportes rodoviário para realizar prioritariamente o transporte de longa distância e o suprimento urbano de mercadorias, essenciais ou não.

Os militares, aliás, não nos deixaram apenas essa triste “herança”. Além da violência institucionalizada para sustentar uma ordem não advinda da paz democrática, mas da repressão policial, os militares foram extremamente corruptos.

Por exemplo: “Ditadura abafou apuração de corrupção, revela documento. Papéis britânicos detalham como o Brasil chegou a abrir mão de indenização por compra superfaturada de navios” (Daniel Buarque, FSP, 02jun18).

São documentos do Reino Unido; a investigação era de superfaturamento de R$15 milhões; os fatos ocorreram nos governos Médici e Geisel. E não se vá dizer que a Inglaterra compunha uma “organização comunista”.

Pode-se afirmar com o testemunho da História: os militares não tinham legitimidade, assassinaram oponentes, roubaram e foram incompetentes inclusive no planejamento geopolítico estratégico, coisa de que tanto se orgulhavam.

Resultado: a logística do transporte no território brasileiro apresenta predominância de rodovias. “Em 2009, segundo a Confederação Nacional de Transportes, 61,1% de toda a carga transportada no Brasil usou o sistema modal rodoviário”.

Apenas 21,0% passaram por ferrovias. Pelas hidrovias e terminais portuários fluviais e marítimos (não obstante a navegabilidade de nossos rios e a nossa tranquila, imensa e habitada costa), somente 14,0% (http://bit.do/ek3ey).

Dependemos, pois, de caminhões. Se pensarmos que o transportado por ferrovia ou água necessita de caminhões para alcançar os pontos finais, somos completamente dependentes de caminhões no longo e no curto percurso.

Caminhões dependem de diesel. O item diesel, pela média dos dados disponíveis na internet, fica em torno de 45% do custo do caminhão utilizado no transporte. O custo diesel, portanto, é decisivo para o caminhoneiro.

O Governo Temer (Temer, o sócio de Lula e Dilma) além dos seus problemas de vício de origem, foi acuado pelo Ministério Público por denúncias de corrupção. Não pôde governar. Não obstante, começou tentando salvar a Petrobras.

O petismo saqueou a empresa: “Petrobras teve prejuízo líquido de R$ 14,824 bilhões em 2016. Em 2015, a estatal registrou prejuízo recorde de R$ 34,8 bilhões. Em 2014, as perdas somaram R$ 21,6 bilhões” (http://bit.do/ek3j3).

O esforço de recuperar a estatal era legítimo, mas, lamentavelmente, restringiu-se ao aspecto contábil, desconsiderando o peso relativo do diesel no custo do sistema de abastecimento nacional, feito sobre pneus de caminhões.

A gestão governamental de logística para o transporte de cargas não pode deixar o preço do combustível de caminhão ao sabor do mercado, mas haverá de administrá-lo como um produto-insumo a ser politicamente sopesado.

A “crise” talvez nos traga um estadista com a responsabilidade inteligente de recompor nossos modais de transporte. Um político que entenda que depender das oscilações de preço do petróleo é entregar-nos à insegurança.

Meu temor é que o sectarismo vigente nos cinja a demagogos ou autoritários corruptos para governar a recomposição do nosso histórico descaso com políticas de transporte e abastecimento. Seria repetir erros. Seria uma estupidez.