Caro leitor, um recente dado divulgado pelo Ministério do Planejamento apresenta uma informação estarrecedora. Atualmente, 3.000 obras estão paralisadas em todo o território nacional. É importante destacar que não se tratam de obras que deveriam sair do papel, mas que em função de elementos diversos sequer iniciaram. Estamos falando de 3.000 obras que foram paralisadas, ou seja, obras que iniciaram e tiveram seu processo interrompido ao logo da trajetória, na mais clara e descarada demonstração de falta de planejamento. O fato em si já é bastante alarmante, porém, em escala ainda maior é o preço desta incompetência. São obras de duplicação de rodovias que, paralisadas, continuam ceifando vidas de usuários, são obras de infraestrutura urbana que, paralisadas, continuam contribuindo para o caos urbanos que presenciamos diariamente, são escolas que deixam de cumprir seu importante papel junto à sociedade, ou seja, se o prejuízo material já é enorme, o social torna-se imensurável.

O mais intrigante, ou melhor, o mais revoltante, é como reagimos de forma indiferente as estes fatos. Até nos prestamos a manifestar algum tipo de repúdio (nas redes sociais, é claro), mas é só. Não cobramos de nossos representantes, aqueles que foram eleitos democraticamente através do nosso voto, esses descalabros com os recursos públicos. Aliás, é realmente difícil cobrar de algo de alguém, se não lembramos em quem votamos. Nosso envolvimento cívico é pífio, chegando a ser constrangedor. Lidamos com a política como lidamos com nossos times de futebol. E enquanto estamos embriagados com a copa do mundo, importantes nomeações para cargos estratégicos na esfera pública acontecem na mais clara e escancarada forma de loteamento de cargos públicos.
Apenas para exemplificar, sem qualquer pudor foi nomeado recentemente para atuar como Diretor na Agência Nacional de Saúde, cujo propósito é o de regular as ações de deliberações de operadoras de planos de saúde, um competentíssimo advogado. O fato estranho não está em nomear um advogado para a diretoria da ANS, mas no fato de que o advogado em questão, até pouquíssimo tempo, advogava em prol das operadoras de planos de saúde do Brasil. Sob quais interesses, nossos digníssimos senadores aprovaram (39 votos a favor e 12 contrários) a indicação de alguém que, no mínimo, levanta a discussão sobre conflitos de interesses?

Na conjuntura atual, o Estado brasileiro serve claramente a dois senhores. Serve àqueles que nele exercem suas funções laborais e àqueles que o administram (leia-se: quadrilhas políticas que se apoderam da coisa pública como se sua fosse). Embriagados pela copa do mundo, movidos a pão e circo, alimentados por migalhas, nossa sociedade sucumbe não somente pela inoperância do Estado, mas principalmente pela ignorância e ausência de envolvimento no processo político. Me inquieta como assuntos supérfluos são tratados de forma séria, e assuntos sérios em tons de leveza e imaturidade. Mas até quando? Até quando continuaremos a manter este comportamento descomprometido? Até quando continuaremos a tratar o que é público com se de ninguém fosse? Talvez quando nos faltar o além do básico, pois o básico já nos falta, o “Gigante” acorde. Basta apenas saber se, quando ele acordar, já não será tarde demais. Reflitamos, e assim a vida segue…