A vida não para

"Precisamos de tempo para repensar. É no ócio criativo que surgem as melhores ideias. É quando a nossa vaquinha vai para o brejo que temos que achar outro meio de sobreviver", por Juliana Mendes.

Em um daqueles dias de quarentena que o coração aperta no peito, percebendo minha impaciência e de meu filho, pego ele, boto no carro e dirijo até a casa de meus pais.

Há alguns dias nos víamos do portão, hoje adentramos no lindo terreno florido e sentamos no balanço, pendurado na mesma árvore de quando eu era criança, agora maior, envelhecida e mais imponente.

Vamos juntos para frente e para trás, inclino o corpo e vejo um panorama em câmera lenta. Minha mãe sorri dentro de casa. Meu filho se aperta em meu colo. As nuvens passam flutuando, brancas, no céu azul claro. O barulho do vento  sopra entre os galhos. Minutos de alívio em um dia estranho.

Lembro que foi exatamente assim que defini esses dias junto com amigos.  Estranhos, e não é de se espantar. Cada um está tentando viver esse tempo ao seu modo. Alguns imersos em maratonas de séries até sentir tédio. Outros exaustos trabalhando mais do que em tempos normais, tentando superar a ansiedade.Tem os pais, pobres coitados que se dividem entre casa, homeschooling, brincadeiras, trabalho. Empresários desesperados. Empregados amedrontados.

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

Não sei se quando Lenine fez essa música tinha noção de que viveríamos esse cenário mas de alguma forma ela cabe perfeitamente. Ter paciência é uma virtude. Principalmente nesses tempos. Mas confesso, essa nunca foi minha qualidade.

Imagine. A garota que não aparecia nos vídeos de festa infantil de tão inquieta.  Adepta dos esportes e aventuras, resolvedora de problemas urgentes. Capítulo superado, felizmente em um determinado momento, achei um botão de calma. Portanto, aviso. Calma. Paciência pode ser aprendida.

Faça meditações. Busque minutos de quietude e perceba suas emoções. Observe-as sem julgamento. Respire. Veja o tempo passar. Não se apresse. Se puder,
encontre um sentido. O seu sentido para esse momento, o que você pode
aprender ou mudar com tudo isso.

Aproveite esta experiência maluca de isolamento e tire algum proveito. Não crie
expectativas, apenas viva o momento, escreva ideias, leia algo útil, se inspire e
depois faça alguma coisa com isso, por favor. Quando bater o desespero, chore e
deixe ir. Depois faça algo que você goste. Se esforce, esse tempo será valioso se
você o aproveitar. Afinal, a vida não é isso? Tempo?

E por falar nele.
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência.

Em uma época que a velocidade e produtividade é rei, e o mundo nos manda parar. Qual é o sentido disso? Quantas milhares de pessoas vivem no modo automático, como hamsters na roda. Curiosamente pertinente, de repente, a vida  nos mandar parar, não é?

Infelizmente o ser humano muda pelo amor ou pela dor. Somente quando a vida vem e nos da uns trancos que paramos para refletir sobre o que está funcionando e sobre o que não está. Em dias normais aparecem alguns rápidos pensamentos mas não nos apegamos, temos que continuar. Com muita sorte, algumas pessoas param e repensam. Redirecionam, mas são poucas. Então cá estamos. Esse é um bom momento.

Por que trabalhar demais? Por que fazer o que você faz? Por que você se afasta
de quem ama? Por que tanta raiva ou tristeza? Por que tanta ansiedade? Por que?
Por que? Por que? Será que pode ser diferente? Como eu gostaria que fosse? E
por que não?

Precisamos de tempo para repensar. É no ócio criativo que surgem as melhores
ideias. É quando a nossa vaquinha vai para o brejo que temos que achar outro
meio de sobreviver. E acreditem, na maioria dos casos, é quando algo que nos
apegamos como nosso único meio de sobrevivência morre, que abre um espaço
para o novo nascer. E nasce. Melhor, maior, mais bonito, mais significativo.

É. A vida é tão rara. E de verdade, o mundo precisa mesmo de um pouco mais de
calma.