Acabo de voltar de férias e depois do primeiro dia de retorno com uma mistura de preguiça
com empolgação por voltar à boa e velha rotina, uma crise de choro do meu filho de 4 anos
me desconcerta.

“Mamãe, não vá trabalhar. Não quero que você trabalhe nunca mais.”
Em segundos minha empolgação de um novo dia “organizado” se transforma em angústia e
frustração. O que eu digo agora?

Ignoro a situação, tento distrair e saio na pressa ou entro no drama e choro junto?
Imagine bem a cena. Quantas mães lidam com esse drama todos os dias ao sair de casa?
Como não sentir o coração apertado? É mole? Não é não. É bem duro na real.

Isso porque muitas vezes nossas emoções se misturam. É a preocupação da mãe em ser responsável e dar conta de trabalho e casa, com o sentimento de tristeza da ausência da mãe, para a criança, por que ela não entende ainda a medida de tempo e tem o desejo de amor incondicional (principalmente em pandemia e pós férias).

Nessas horas, vem à tona um sentimento de culpa, que não é nada consolador e que praticamente todas as mães carregam. Um triste legado das gerações anteriores. E tem mais por trás. Quando o seu filho manifesta alguma emoção ou reação mais intensa, alguma memória da sua criança (sim, você quando tinha a idade do seu filho ou outra idade), mesmo que inconsciente, emerge.

Como será que você se sentia quando tinha a idade de seu filho?
Pode ser difícil lembrar mas a forma que você reage hoje ou a história que é contada para você da sua história e de seus pais, dá pistas. Olhar para o sofrimento da sua criança interior é uma forma de se conectar melhor consigo mesmo, com o seu próprio sentimento e com seus filhos.

A compaixão pelo outro começa com a autocompaixão. Emoções precisam ser expressas, aceitas e acolhidas. Não negadas. Tanto as suas quanto as de seus filhos. Não é o caminho mais fácil mas com certeza é o mais produtivo.

Às vezes é mais fácil procurar uma distração dizendo “olha o passarinho” do que dizer “sim você está com raiva porque não te permiti fazer o que quer. Lamento meu anjo, mas nem sempre as coisas saem como queremos” em um tom de acolhimento e empatia.

Isso porque aprendemos que ter raiva é feio, não é? Que homens não podem chorar. E que as meninas tem que dar conta. E está tudo errado, por isso lidamos tão mal com esses sentimentos em nós e nos outros. A emoção existe, não podemos negar. Obviamente é um desafio administrar.

Mas calma. Mesmo que seja angustiante ou pareça que nunca iremos vencer esses dilemas, a vida ensina a viver um dia de cada vez. Aprender com os próprios erros. Investigar como a sua criança se sentiu e que sentimentos seus filhos despertam em você, já é um bom caminho trilhado.

Ler, fazer psicoterapia, conversar com outros pais e mães, tentativa, erro e reconciliação, também funciona. Não tem receita pronta. Procure ser sempre sincero consigo mesmo e com as crianças, reconheça seus próprios sentimentos e os de seus filhos e aceite que eles existem, sem julgar ou criticar.

Dia desses ouvi meu filho pedir desculpas depois de chamar a sua atenção por algo que fez errado. Achei tão fofo. Mais fofo ainda porque ele não fez drama ou se sentiu culpado. Foi um pedido de desculpas sincero. Aberto. Tranquilo.

Nesse momento lembrei do quanto fiz isso com ele nos últimos tempos. Do quanto reconheço quando faço algo errado, porque faço muito, como todos nós. Lembrei dos litros de saliva “gastas” para explicar coisas difíceis de serem explicadas mas ditas com honestidade. E vi o quanto vale a pena.

É.. Dói. Cansa. Mas vale. Vale muito. Cada esforço para educar é como uma moedinha depositada na fonte da esperança. Que sigamos com paciência, atenção e gentileza com esses pequenos seres humanos que esperam a nossa disponibilidade infinita, que nem sempre temos, mas que não podemos negar que é genuína.

Que possamos suprir como pudermos as necessidades delas. E sejamos assim também com a criança que vive no porão da nossa alma.

 

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