Rafael Mariano de Bitencourt,
Neurocientista, Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde – PPGCS – UNISUL

Uma nota a você que começa a leitura agora: neste texto vou escrever em primeira pessoa, pois se trata de uma visão pessoal e, é claro, como toda visão pessoal, está embasada em minhas percepções de vida. Contudo, é importante salientar que as minhas percepções de vida incluem uma visão cientifica, de alguém que trabalha com ciência há 15 anos, portanto, não se trata de uma visão leiga. E, o mais importante, não é por ser uma visão pessoal que ela não possa ter utilidade na vida de outras pessoas, na sua vida quem sabe. Pois, como costumo dizer, os versos de um poeta estão sempre prontos para se encaixarem na poesia da vida daqueles que, de coração aberto, os leem.

O momento que vivemos é delicado, único na nossa história recente e, portanto, requer muito cuidado, muito mesmo! Há quem subestime a situação, há quem se aproveite dela, mas não há uma única pessoa nesse mundo que não vá aprender com ela. De alguma forma, reclusos em nossas casas, todos e todas estamos forçados a algum tipo de aprendizado. E é justamente esse fato que tem sido a luz no fim do meu túnel. Não sairemos os mesmos desta experiência… e que bom(!), pois estávamos mesmo precisando de algumas mudanças.

Vivemos em uma época que, para mim, em muitos aspectos, beira o inacreditável. Em pleno século XXI, voltamos a viver situações que eu conhecia apenas nos livros de história, as quais achei que não teriam a mínima chance de se repetir novamente em nossa sociedade. Nesse ponto já começa parte do meu aprendizado, que é não subestimar a capacidade de surpresas que o universo constantemente nos oferece, tampouco subestimar a ignorância humana. Há, hoje, um movimento de negação da ciência que é extremamente perigoso. Esse movimento nega descobertas científicas bastante relevantes, como, por exemplo, a importância das vacinas para a nossa saúde, o problema cada vez mais real do aquecimento global e até mesmo a forma esférica do nosso planeta. Esse último questionamento, por exemplo, não me parece muito absurdo quando feito lá na idade média. Mas hoje, no ano de 2020, mais de quinhentos anos depois da expedição de Fernão Magalhães comprovar que a terra era redonda, aí sim me assusta bastante. Assim como me assusta, também, que as pessoas ainda subestimem e não acreditem na gravidade do momento pelo qual estamos passando. É muito importante que essa situação nos ensine, de uma vez por todas, que fatos científicos não são questão de opinião. Eu achar a cor azul bonita e você não, isso sim é uma questão de opinião. Já a importância das vacinas, a realidade do aquecimento global, a esfericidade da terra e a realidade a respeito da pandemia que vivemos hoje, isso não é uma questão de opinião, são fatos científicos e há uma diferença enorme entre uma coisa e outra.

Outra coisa que espero que aprendamos com essa situação toda é sobre a importância da pesquisa científica, e das instituições que a fazem (ex.: universidades), na nossa sociedade. Todas as medidas com alguma eficácia que estão sendo tomadas hoje e todas as possíveis soluções futuras para este grande problema são, via de regra, aguardadas das ações de cientistas que vêm trabalhando incessantemente ao redor do mundo e aqui mesmo, no Brasil. É importante que se saiba que esses cientistas são, em sua grande maioria, alunos de iniciação científica, de mestrado e doutorado, professores e pesquisadores de universidades públicas e privadas. Que possamos aprender com este vírus que o investimento nessa área não é questão de ideologia, e sim de sobrevivência. Os cientistas, hoje, assim como os profissionais da coleta de lixo, da saúde, da segurança, do transporte de cargas e tantos outros, são eles quem têm exercido papel de verdadeiros heróis nessa guerra que travamos contra um inimigo invisível. Valorize-os!

Que possamos aprender ainda, dessa vez reclusos em nós mesmos, qual o verdadeiro sentido da nossa existência, o que faz nossos corações pulsarem e que, de forma mais consciente e sensibilizada, possamos estar mais imunes, não só ao vírus, mas àquela forma automática e sem sentido que, muitas vezes, levamos nossas vidas. Que possamos lembrar do valor de um abraço sincero e demorado muito mais do que do valor do dólar; do calor que sentimos em nossos corações em uma conversa olho no olho, presente, muito mais do que as tecladas frias que damos em nossos smartphones. Que possamos lidar melhor com nossos medos e valorizar mais nossa saúde mental, que é o lugar em nós mesmos onde, de fato, vivemos. Que possamos aprender, por fim, aquilo que o dia a dia nas ruas de nossas rotinas nos fez esquecer e, assim, possamos voltar às nossas casas, mas, desta vez, com um olhar diferente. Eu tenho aprendido tudo isso e um bocado mais nesse período de reclusão, medos e turbulências. E, como comentado lá no início do texto, é justamente esta a minha luz no fim do túnel, a esperança de que mais pessoas estejam aprendendo o que é preciso ser aprendido. Vamos sair dessa situação, não tenho dúvidas, mas espero que os aprendizados dela nunca saiam das nossas vidas. Ah! E já estava esquecendo: por hora, aprendam a ficar em casa, por favor!

Você sabia?

Um estudo conduzido por pesquisadores do Reino Unido, EUA e Austrália, sugere que o novo coronavírus tenha surgido a partir de seleção natural, possivelmente vindo de algum animal selvagem, como o morcego. Esse estudo, publicado na renomada revista científica Nature Medicine (2020), descarta completamente que o novo vírus tenha sido criado em laboratório, como insistem em acreditar alguns adeptos de teorias conspiratórias que beiram um delírio psicótico (tudo que a gente não precisa neste momento). O mercado de animais selvagens como o de Wuhan, cidade chinesa berço do novo coronavírus, surgiu a partir de uma necessidade de pequenos produtores que não tinham como competir com as grandes empresas produtoras de alimentos. Com a regularização da prática, a criação de animais selvagens em cativeiro aumentou exponencialmente e hoje atende ao “paladar exótico” (e também irresponsável) de uma minoria de pessoas com alto poder aquisitivo. A transmissão do vírus entre o morcego e o ser humano, por vias naturais, seria muito pouco provável. A ciência achará uma solução para a pandemia do novo coronavírus, não há dúvidas. Contudo, infelizmente, não há a mesma garantia em relação à ignorância humana.

Fique atento!

Os Programas de Pós-Graduação da UNISUL, responsáveis por boa parte das pesquisas desenvolvidas nesta Universidade, estão frequentemente com editais abertos para seleção de alunos (pesquisadores) em ambos os níveis, mestrado e doutorado. Há possibilidade de pesquisas nas áreas de Ciências da Saúde, Ambientais e Linguagem, além de Administração e Educação. Entre no site da Unisul (www.unisul.br), no link “Mestrado e Doutorado”, e confira as possibilidades. Seja você também um cientista e contribua com a pesquisa em nosso país.