Fabiana Schuelter Trevisol
Coordenadora Adjunta PPGCS, professora e pesquisadora da Unisul
Coordenadora do Centro de Pesquisas Clínicas HNSC/Unisul

“A diferença entre o medicamento e o veneno é a dose”.
Paracelso, médico e físico do século XVI

Medicamento é o produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico. Também é chamado de fármaco, medicação ou “remédio”, embora esse último não se restringe a medicamento apenas, uma vez que remediar pode significar outras intervenções. É importante ressaltar que o medicamento é uma tecnologia importante no processo terapêutico de inúmeros tipos de doenças, porém, é preciso evidenciar que o uso indiscriminado e, muitas vezes, desnecessário, podem causar danos ao indivíduo e à sociedade.

Conceitua-se como uso racional de medicamentos quando pacientes recebem medicamentos para suas condições clínicas em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade. O uso irracional ou inadequado de medicamentos é um dos maiores problemas em nível mundial. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que mais da metade de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou vendidos de forma inadequada, e que metade de todos os pacientes não os utiliza corretamente.

Os medicamentos, se utilizados indevidamente, podem causar danos à saúde e levar o indivíduo ao óbito. Nesse debate de conceitos e termos, é importante demonstrar que o uso inadequado ou irracional de medicamentos é uma das formas de medicalização da vida, utilizado como meio para “normalizar” as pessoas. Atualmente, pessoas são constantemente incentivadas a resolver os problemas sociais utilizando medicamentos, e com a ajuda das propagandas de medicamentos nos meios de comunicação, disponibilizadas a todo o momento, é fortalecida a ideia de que utilizar medicamento é sempre bom, quando isso não é verdade.

Os profissionais da saúde precisam estar atentos aos diversos aspectos relacionados à farmacoterapia do paciente, observando se de fato determinado medicamento está indicado, se é efetivo e seguro, e se há adesão ao tratamento.

Mesmo quando o uso é correto podem acontecer efeitos indesejáveis com consequências imediatas ou tardias ao indivíduo. Vejamos os conceitos mais utilizados:

EVENTO ADVERSO: é um evento desfavorável que ocorre durante ou após o uso de medicamento ou outra intervenção, o medicamento em si pode não ser a causa. Ex. erros de medicação ou queda de um paciente. Um evento adverso é considerado grave quando, por exemplo, leva a óbito ou ameaça à vida, gera hospitalização ou prolongamento de internação já existente, incapacidade ou anomalias congênitas.

REAÇÃO ADVERSA A MEDICAMENTO (RAM): é qualquer resposta prejudicial ou indesejável, não intencional, e inesperada a um medicamento, que ocorre nas doses usualmente empregadas. A RAM é caracterizada pela existência de uma relação causal específica entre o medicamento e a ocorrência.

Toda reação adversa a medicamento é um evento adverso, mas nem todo evento adverso é uma RAM.

INTOXICAÇÃO: ocorre quando se utiliza uma superdosagem do medicamento.

EFEITO COLATERAL: efeito além da ação principal do medicamento. Geralmente é prevista pelos profissionais de saúde. Ex. Sonolência durante o uso de alguns anti-alérgicos. Os efeitos colaterais podem ser desejáveis ou indesejáveis.

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS: interação entre dois ou mais medicamentos, ou medicamento-alimento que interfere na sua absorção ou efeito no organismo. As interações podem aumentar ou anular o efeito do medicamento.

Pessoas doentes, com comorbidades e em extremos de idade (crianças e idosos), e também as gestantes, são mais vulneráveis aos processos iatrogênicos envolvendo o uso de fármacos. Também há problemas relacionados à polifarmácia, ou seja, quando se utiliza 5 ou mais medicamentos simultaneamente, prática comum entre idosos ou pessoas com doenças crônicas. Isso aumenta as chances de interações medicamentosas e erros relacionados ao uso de medicamentos. Também não é infrequente o uso de medicamento em cascata: ou seja, devido ao efeito colateral de um medicamento, toma-se um segundo para auxiliar neste dano.

Ainda se têm poucos estudos no Brasil em relação as estatísticas das mortes por erros de medicação. Dados do Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP) mostram que, no mínimo, 8.000 mortes ocorrem ao ano devido a erros de medicação, sendo que falhas ou reações adversas em decorrência da administração de medicamentos correspondem a 7,0% das internações nos sistemas de saúde, o que resulta em 840 mil casos/ano. Embora se reconheça que estes dados são subnotificados e, portanto, os casos e óbitos estão subestimados.

 

Você sabia?

O Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNISUL tem uma linha de pesquisa sobre Estudos e desenvolvimento de medicamentos e produtos para a saúde que envolve estudos de utilização e uso racional de medicamentos. Matrículas abertas.

 

Fique atento!

Medicamentos devem ser prescritos por profissionais de saúde. Em caso de necessidade de uso, siga as recomendações da bula e orientações do farmacêutico.