Prof. Ana Carolina Cernicchiaro
Doutora em Literatura, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e do curso de Cinema e Audiovisual da Unisul, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Estética e Política na Contemporaneidade (Epoca).

“Poesia, uma coisa pra nada”, sentenciou o poeta Paulo Leminski. O filósofo Jacques Derrida foi menos incisivo, mas, por fim, concluiu que o poema “se deixa fazer, sem atividade, sem trabalho, no mais sóbrio pathos, estranho a toda produção”. Também Georges Bataille afirmava que “a literatura rechaça de maneira fundamental a utilidade”. Antes deles, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray, o esteta Oscar Wilde ampliara a assertiva para além da escritura ao dizer que “toda a arte é absolutamente inútil”.

Em um mundo utilitarista, mercadológico, produtivista, essa gratuidade, esse dom, legou a arte à parte do fogo, ou seja, ela é “aquilo que uma cultura reduz à destruição e às cinzas, aquilo com o que ela não pode conviver, aquilo que ela faz um incêndio eterno”, diz Maurice Blanchot. O incêndio pode até ser eterno, mas quanto mais o Estado flerta com o fascismo, mais as chamas se avivam. Lembremos da famosa fogueira de livros promovida pelo Terceiro Reich ou, para não irmos muito longe, da muito recente onda obscurantista que tomou de assalto o Brasil e censurou artistas e exposições em nome da moral, da família e dos bons costumes. Nos últimos anos, vimos editais, investimentos, fundações, agências de fomento e o próprio Ministério da Cultura serem extintos – afinal, a arte não serve para nada mesmo.

Mas se ela não serve para nada, por que incomoda tanto? Talvez porque esteja justamente neste “não servir para nada” que se encontra sua potência, uma potência de não, segundo a expressão de Giorgio Agamben, que é o contrário da impotência. A potência de não da arte é um agenciamento social e político, ela age no mundo nos desviando de sua lógica da produtividade, da atividade, do lucro, colocando em questão nossas dicotomias classificatórias e mercadológicas, através das quais reduzimos ao útil tudo o que nos cerca, de coisas a pessoas, passando, é claro, pela natureza. Daí o xamã Yanomami Davi Kopenawa nos apelidar de “povo da mercadoria”, por nosso desejo desmedido por mercadorias a ponto de não enxergarmos nada além delas. “Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios”, afirma ele.

A arte nos faz enxergar para além da mercadoria, resgata nossa sensibilidade, nos desvia do automatismo, nos faz perceber o mundo, experienciá-lo verdadeiramente. Em O tempo e o cão, a psicanalista Maria Rita Kehl conclui, a partir de Walter Benjamin, que o tempo mecanizado do capitalismo é sobrecarregado de impulsos. Esse tempo comprimido nos escapa, a vida passa em altíssima velocidade sem percebermos, a sensação de cansaço é constante (Byung-Chul Han nos chama de “sociedade do cansaço”), não há lugar para a fantasia, o devaneio, a imaginação. Essa série de vivências automáticas não produzem modificações duradoras no psiquismo, deixando uma sensação de vida vazia, não vivida, nos incapacitando de experienciar o que vivemos. Como diria Leon Tolstoi, “se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não tivesse sido”.

E é para libertar nossa percepção desse automatismo que existe arte, defende o formalista russo Vítor Chklóvski em um famoso texto de 1917, intitulado “A arte como procedimento”: “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo”.

Assim, se a lógica da mercadoria busca transformar tudo em objeto padrão, que pode ser medido segundo um axioma comum – o dinheiro, inclusive outros seres vivos, humanos ou não, a arte faria o contrário, singularizaria tudo, inclusive as coisas, os acontecimentos de nossa vida, a linguagem, o pensamento, os afetos, aumentando nossa percepção deles (como a criança que se deslumbra com o mundo a todo instante).

Não sabemos ainda quais serão as consequências desse isolamento social a que fomos forçados para nos proteger do Covid-19, mas, queiramos ou não, para o bem ou para o mal, o mundo não será mais o mesmo. Fomos obrigados a desacelerar, a reduzir o passo, a consumir menos; e a arte saiu do seu lugar de coisa menor, ganhou status de serviço de utilidade pública diante do tédio, da solidão, do medo, do trauma. Podemos pensar essa conjunção entre a necessidade do isolamento e a revalorização da arte como uma espécie de linha de fuga de nossa temporalidade acelerada, sufocante, de nosso automatismo vazio, de nossa insensibilidade mercadológica, uma possibilidade de criação de mundos comuns, ali onde os corpos não podem se tocar, não a falsa universalidade do como-um fascista (que reduz a alteridade à mesmidade, o outro ao eu), mas a criação de mundos com-uns, onde os seres se percebem como seres-uns-com-os-outros, singularmente plurais, segundo a bela expressão de Jean-Luc Nancy. Uma abertura ao outro, ao mundo, ao mundo do outro, a outros mundos possíveis.

 

Você sabia?

Pesquisadores de Santa Catarina poderão participar do Edital de Chamada Pública lançado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), com o objetivo de incentivar estudos sobre o coronavírus de impacto imediato sendo na área da saúde ou de retomada econômica. Serão R$ 500 mil destinados ao apoio das propostas selecionadas e a submissão precisa ser realizada até 5 de maio no site www.fapesc.sc.gov.br.

 

Fique atento!

O curso de Cinema e Audiovisual da Unisul, exibe sessões de filmes todas os sábados às 20 h. Para assistir basta clicar em https://www.youtube.com/user/CinemaUnisul. As produções ficam disponíveis até segunda-feira, às 14h.