Fabiana Schuelter Trevisol
Coordenadora Adjunta PPGCS, professora e pesquisadora da Unisul
Coordenadora do Centro de Pesquisas Clínicas HNSC/Unisul

 

Como professora de Epidemiologia, atuando na linha de pesquisa em doenças infecciosas, acompanhando as evidências científicas e a história do processo saúde-doença no mundo, sempre mencionei em minhas aulas que um dia viveríamos a situação que estamos nos deparando agora: cidades sitiadas, quarentena, alta transmissibilidade, agente virulento e letal, medo, angústia, incertezas, pandemia global. Igual visto em alguns filmes… até passava alguns trailers durante as aulas, quem foi meu aluno pode confirmar. Apesar de acreditar nisso num futuro ainda que distante, principalmente pelas mudanças climáticas e comportamento do homem na invasão territorial da natureza (fauna e flora) confesso que também fiquei surpresa, pois toda a epidemia é inesperada.

Então é impossível pensar em escrever sobre outro assunto agora que não sobre o novo coronavírus (SARS-CoV2), causador da COVID-19.

Desde o primeiro caso suspeito em Tubarão, comecei a ler e estudar mais intensamente sobre esse novo agente e o que estava acontecendo em outros países que foram atingidos primeiro. Creio que o atraso na inoculação viral no Brasil nos deu a possibilidade de seguirmos alguns exemplos benéficos da Ásia, e evitar alguns erros e imprudências da Europa e América do Norte. Apesar disso, mesmo nós cientistas, nos deparamos com as incertezas e as perguntas contundentes feitas pelas pessoas: Quando isso vai acabar? Vai ter vacina para o coronavírus? Terei imunidade permanente? A hidroxicloroquina funciona? Até quando manteremos a quarentena, o isolamento social? Dentre outras dúvidas e questionamentos feitos por gestores, leigos, sociedade em geral.

Como cientistas, conseguimos fazer projeções sempre embasadas por evidências científicas atuais publicadas em periódicos biomédicos, após análise crítica e, também, com algum lastro histórico de agentes semelhantes do passado. Por isso, essa é a nossa contribuição para a crise que estamos vivendo: estudar e dar algum direcionamento para as tomadas de decisão.

Então algumas informações importantes:
1) Esse vírus veio para ficar, está mundialmente disseminado e estima-se que entre 80-90% da população entrará em contato com ele em algum momento. Por ser um vírus que também sofre mutação (ainda que não se saiba quanto), podemos ter novos ciclos epidêmicos nos anos subsequentes, e esperamos que a gravidade seja menor e com a esperança do surgimento de uma vacina, tal qual acontece com o vírus Influenza (causador da gripe). Mesmo assim, todo ano temos pessoas que necessitam de hospitalização e morrem por complicações da gripe, o mesmo pode acontecer com o coronavírus.

2) Pelos dados que temos hoje, dos infectados, de 10-20% serão casos sintomáticos, e destes, 16-20% terão um quadro clínico severo, necessitando de cuidados médicos (hospitalização).

3) Das pessoas hospitalizadas, cerca de 20% precisará de internação em unidades de terapia intensiva com uso de respirador.

Então, vamos pensar na Região dos Municípios da Região de Laguna (AMUREL): temos aproximadamente 370.000 habitantes nos 18 municípios, cuja cidade polo e única com leitos de UTI com respirador é Tubarão. Se 80% se infectar serão 296 mil, 10% de sintomáticos resultam em 29.600 pessoas. Se destas 16% necessitarem de hospitalização dá 4.736 pessoas. E entre estas, se 20% precisarem de UTI resulta em 947 habitantes.
Um outro dado relevante é que hoje temos 50 leitos ao se considerar os dois hospitais de Tubarão. Considerando que cada paciente com COVID-19 ficará entre 15-21 dias na UTI, percebe-se a gravidade da situação em que nos deparamos, e com o colapso do sistema de saúde amplamente comentado nos meios de comunicação.

Mas não é só isso. Quando falamos em achatamento da curva, significa que tentaremos diluir esse quantitativo em alguns meses, para que essas pessoas acima citadas não fiquem doentes ao mesmo tempo. Além disso, estima-se que 20% dos doentes sintomáticos são trabalhadores da saúde, causando absenteísmo. Para atender aos casos graves, principalmente em UTI, são necessários recursos humanos especializados – não é qualquer médico ou enfermeiro que consegue dar assistência ao paciente grave. Também há sinalização da escassez de equipamentos de proteção individual (EPI) como máscaras, aventais, e outros insumos para proteção dos profissionais e para evitar a transmissão entre os infectados.

Um outro detalhe muito importante é que durante a pandemia, pessoas adoecem por outros motivos, continuam a acontecer acidentes, infartos, partos prematuros, sepse, que também requerem cuidados intensivos, portanto o número de leitos vagos é muito inferior ao apresentado.

Por estas e outras razões, nós como pesquisadores e profissionais de saúde que somos, pela preservação de vidas e da assistência adequada à saúde, defendemos o isolamento (quarentena) a fim de evitar a aceleração da epidemia. Parafraseando o Presidente da Fundação Municipal de Saúde de Tubarão, Daisson José Trevisol “tudo o que fizermos neste momento, se der certo, será considerado exagero; tudo que fizermos neste momento, se der errado, terá sido insuficiente”.

Por fim, lembrem-se: isso também vai passar…

 

Você sabia?
Que no mundo todo, incluindo o Brasil, há diversos cientistas tentando encontrar soluções para a pandemia: vacinas, medicamentos, estudos, desenvolvimento de novos EPIs, respiradores. Além disso, diversos alunos e professores da Graduação e Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNISUL são voluntários no combate à epidemia.

 

Fique atento!
Siga as recomendações dos profissionais de saúde e autoridades sanitárias e epidemiológicas. Cuidados com higiene das mãos, limpeza pessoal e ambiental, além da etiqueta da tosse previnem diversas doenças, não só Coronavírus.
Faça sua parte, se puder, fique em casa!