Rafael Mariano de Bitencourt, Neurocientista, Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde – PPGCS – UNISUL

Há quem diga que o tratamento ou até mesmo a cura para vários dos males que assolam a saúde da humanidade possa vir da natureza. Eu, particularmente, acredito muito no potencial da “mãe terra” que, sem dúvida, é o maior e mais diverso “laboratório” do qual dispomos. Mas, como neurocientista, não basta que eu apenas acredite nisso, eu preciso também pesquisar, comprovar as possibilidades.

É justamente nesse intuito que venho pesquisando, há alguns anos, através do Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC) o qual eu coordeno no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNISUL, um chá milenar de origem na tradição dos povos indígenas conhecido como ayahuasca. Você já ouviu falar deste chá? Se o assunto é do seu interesse, lhe convido a seguirmos juntos na leitura que se segue. Vamos lá!

Ayahuasca é uma palavra de origem Quéchua, língua natural de parte da floresta amazônica, que significa, em uma tradução mais literal, “cipó de morto”. Trata-se do nome dado à bebida enteógena (do grego “entheogen”, que significa, literalmente, “manifestação interior do divino”) produzida a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi (popularmente conhecida como “jagube” ou “mariri”) com várias plantas, em especial a Psychotria viridis (popularmente conhecida como “chacrona” ou “rainha”).

A mistura dessas plantas é uma verdadeira “engenharia farmacológica” descoberta pelos povos indígenas há mais de cinco mil anos. Engenharia porque é preciso da ação conjunta das duas plantas para que o efeito do chá ocorra em sua totalidade. Enquanto a Psychotria viridis possui a substância psicoativa do chá, denominada N,N-dimetiltriptamina (DMT), a Banisteriopsis caapi possui alcaloides que possibilitam a ação desta substância no sistema nervoso central (SNC).

Explicando melhor, o DMT, quando ingerido isoladamente por via oral, é degradado em nosso organismo por uma enzima chamada monoamina oxidase (MAO), ou seja, a “chacrona” (P. Viridis) sozinha seria inativa. Contudo, o “jagube” (B. Caapi) possui um inibidor natural desta enzima, possibilitando que o DMT fique livre para chegar até o cérebro.

E, através de um conhecimento que não cabe em livros, acumulado ao longo de milhares de anos, os povos da floresta já sabiam disso. Tanto sabiam que hoje ajudam os cientistas a entender melhor o potencial terapêutico desse chá que, além de ser uma alternativa psicofarmacológica cada vez mais promissora, é também um patrimônio imaterial herdado dos ancestrais ameríndios e precisa ser reconhecido como tal.

Em relação às pesquisas, os cientistas têm descoberto um enorme potencial para o uso deste chá, que vai desde efeitos em nível molecular, como ações anti-neuroinflamatórias e crescimento de novos neurônios; até efeitos comportamentais importantes, com possibilidades promissoras no tratamento da depressão, traumas psicológicos e dependência química.

Mas, é claro, como toda ferramenta farmacológica, além dos benefícios também há os riscos (ex.: totalmente contraindicada para indivíduos com histórico de esquizofrenia e transtorno bipolar), os quais precisam ser cada vez mais entendidos do ponto de vista científico para que se possa oferecer uma alternativa que, além de eficaz, seja também segura.

Como sabiamente dito pelo Mestre Irineu, fundador do primeiro grupo neo-ayahuasqueiro, “a ayahuasca é para todos, mas nem todos são para a ayahuasca”. O fato é que este chá milenar tem sido um convite para que ciência e tradição deem as mãos e, juntas, possam trazer das florestas a medicina que talvez fará a diferença nas cidades.

 

Você sabia?

O Brasil é um dos países que desponta com pioneirismo no estudo da ayahuasca, havendo pesquisas de grande relevância sendo produzidas a respeito desse tema aqui mesmo, em solo tupiniquim. Dentre essas pesquisas, destaca-se o estudo coordenado pelo Professor Stevens Rehen e publicado na prestigiada revista Scientific Reports (2017), do grupo Nature, o qual mostrou que o DMT, substância presente na ayahuasca, foi capaz de reduzir a expressão de proteínas relacionadas à neuroinflamação e degeneração cerebral, além de aumentar a expressão de proteínas associadas à neuroplasticidade.

Simplificando, a substância presente na ayahuasca tem o potencial de proteger nossos neurônios e ainda facilitar o aprendizado. Já um outro estudo coordenado pelo Professor Jaime E. Hallak e publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria (2015), mostrou que uma única dose de ayahuasca foi capaz de exercer efeitos antidepressivos rápidos (já no primeiro dia após o tratamento) em pacientes diagnosticados com depressão que não respondiam ao tratamento tradicional.

Estes dois estudos, ambos conduzidos por cientistas brasileiros, mostram o enorme potencial terapêutico que há neste chá de origem milenar e o importante papel do nosso país nessa linha de pesquisa.

 

Fique atento!

O Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da UNISUL, desenvolve pesquisas referente à ayahuasca e outros temas relacionados à psicofarmacologia. Se você tem interesse em ser um pesquisador desta área, fique atento aos editais de mestrado e doutorado do PPGCS acessando a página da UNISUL (www.unisul.br), no link “Mestrado e Doutorado”. Confere lá!