Prof. Dr. Clavison Martinelli Zapelini
clavison.zapelini@unisul.br

Vivemos em um tempo caracterizado por uma imensa produção de informações e, principalmente por uma superabundância de imagens; sendo inclusive, uma tarefa difícil selecionar aquilo que queremos ou devemos ver. Mais do que pela grande variedade de opções isso acontece porque, enxergar é ver com profundidade; é abrir-se à contemplação, dando vazão ao que está oculto, é ir além do que os olhos físicos podem ver.

Essa não é uma tarefa fácil quando dispomos do sentido da visão, e pode parecer impossível para quem possui deficiência visual, mas a experiência que relatarei na sequência mostra, o quanto a inclusão e a acessibilidade de pessoas com deficiência pode revelar talentos e confirmar que acreditar no potencial das pessoas é um requisito fundamental para qualquer docente.

A Unidade de Aprendizagem de Processamento Digital de Imagens, no Curso de Ciência da Computação, utiliza determinados filtros com o objetivo de preparar uma imagem para ser processada por sistemas computacionais. No planejamento das aulas, já sabendo que eu teria um aluno com deficiência visual na turma e, mesmo já conhecendo o Ruhan de outras Unidades de Aprendizagem e sabendo do potencial que ele tem, a preocupação foi inevitável.

Como ensinar Processamento Digital de Imagens para um aluno que não conseguirá enxergar os resultados? Em outras Unidades de Aprendizagem diversas adaptações foram planejadas e executadas para facilitar a aprendizagem dos conteúdos pelo Ruhan, mas numa UA extremamente visual, como seria?

No primeiro dia de aula (ainda presencial – antes da pandemia) me sentei com o Ruhan e fizemos um planejamento. O desafio seria ele “enxergar” a imagem da mesma forma que o computador enxerga, ou seja, uma sequência gigantesca de bits (0 e 1). Quando eu propus esse desafio, confesso que nem eu mesmo acreditava que seria possível. Com o decorrer do tempo ele foi me ensinado a ensiná-lo.

Ser colaborativo, é uma característica muito presente nele. O conteúdo foi se desenvolvendo de tal forma que o trabalho final da Unidade de Aprendizagem, que ele escolheu fazer sozinho mesmo com a possibilidade de ser em grupo, teve um dos maiores níveis de complexidade (também escolhido por ele) e um enorme índice de sucesso.

“Fazer processamento digital de imagens sem poder visualizar as imagens parecia um grande desafio, mas acreditava que o professor dessa disciplina, Clavison, conseguiria dar um jeito para passar os conceitos para mim. Com o andar da matéria e os estudos sobre a área, percebi que poderia inclusive desenvolver trabalhos satisfatoriamente usando as técnicas para processamento de imagens, como foi o caso de um projeto onde desenvolvi um programa que visa preparar as imagens para receber um OCR, podendo assim ajudar outras pessoas com deficiência visual, e porque não, me ajudar também. Muitas pessoas pensam que não dá de fazer muita coisa sendo pessoa com deficiência visual, mas eu acredito que esse é um pensamento totalmente equivocado, que não compreende como a maioria das atividades podem ser adaptadas. Além disso o que não é acessível agora, talvez poderá ser graças a tecnologia no futuro. Para ajudar as pessoas a entenderem isso criei um canal no youtube, https://www.youtube.com/eunaoviisso, onde mostro um pouco mais como é minha vida de pessoa cega”, Ruhan Gonçalves

Segundo a legislação brasileira, a acessibilidade é a “condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida” (Brasil, Decreto nº 5.296/2004).

Já a inclusão, está associada a integração de todas as pessoas, sem exceção, independentemente de cor, classe social e condições físicas e psicológicas. No âmbito escolar está relacionada mais comumente, à inclusão educacional de pessoas com deficiência. Contudo, para que esses direitos sejam plenamente assegurados – seja no ambiente escolar, familiar ou social – várias ações ainda são necessárias.

Ações que vão desde a regulamentação da legislação até o desenvolvimento e otimização de produtos, processos, ambientes, metodologias, etc. que favoreçam a inclusão e a acessibilidade. Na experiência relatada acima, podemos dizer que tanto o Ruhan como eu vivemos um processo de acessibilidade e inclusão. Eu aprendendo que não há limites na docência e o Ruhan mostrando todo o seu potencial.

 

Você sabia?

O curso de Ciência da Computação da Unisul desenvolve pesquisas em diversas áreas de conhecimento, envolvendo tecnologias das mais diversas: Inteligência Artificial, Processamento de Imagens, Desenvolvimento de Jogos entre tantas outras. Mais informações: http://www.unisul.br/presencial/graduacao/ciencia-da-computacao-tubarao/

 

Fique atento!

A Unisul possui uma equipe de profissionais prontos para fazer adaptações e inclusão do aluno com qualquer necessidade especial. Informe-se no Programa de Acessibilidade Unisul: http://www.unisul.br/wps/portal/home/meus-servicos/sou-aluno/programas-institucionais/programa-promocao-da-acessibilidade