Prof. Dr. Marcos Marcelino Mazzucco,
Coordenador dos cursos de Engenharia Química, Química bacharelado, Química licenciatura, Engenharia de Controle e Automação e Engenharia do Petróleo na Unisul

Nas duas últimas semanas ouvi quatro vezes menções sobre a futura dominância da automação e da inteligência artificial em atividades humanas. Não há nada de inusitado nisso, exceto que os contextos em que o assunto apareceu foi em reuniões de formação de professores universitários. E, neste contexto, também não há nada de excepcional, exceto o tom de distanciamento entre as frases usadas e as aplicações em discussão naquelas oportunidades. E isto chamou-me atenção, bem como a estreita relação que este tema guarda com a situação que a humanidade vive, além disso, a futurização do tom das frases é interessante.

A Automação e a inteligência artificial são mais frequentemente associadas com indústria e aplicações de software específico, longe do cotidiano. Essa noção de distanciamento é irreal, bem como é o pensamento de dominação e também a conjugação do verbo no futuro. Um bom exemplo pode ser encontrado nesta leitura.

Há três décadas este texto seria impresso numa gráfica, cujo tamanho foi diminuindo, década após década, pela mecanização e automação e, em 30 anos, estamos na versão puramente digital. Não há mais impressão, empacotamento, distribuição ou depósito de papel. Saudosismo a parte, ganhamos agilidade e uma escala atemporal, pois você pode estar lendo este texto em 22/07/2030.

Os serviços bancários, as contabilidades de empresas, serviços de transporte por aplicativos, compras on-line, sistemas de gestão de pessoas e muitos outros casos são exemplos de automação, que também envolvem inteligência artificial e que fazem parte das vidas de todos. A automação de serviços é tão presente quanto a automação industrial. E a aplicação da inteligência artificial nestes setores é tão intensa que parece natural.

A conversa entre os professores me fez pensar como a fluidez das chamadas soluções inteligentes, dá para as pessoas a sensação que a automação das coisas não está tão próxima e tão presente. No caso dos professores mencionados, os ambientes digitais de aprendizagem com ferramentas de simulação, avaliações automatizadas e vídeos, por exemplo, automatizam certas práticas de ensino, assim, não deixamos de vivenciar os automatismos em tudo.

O uso de inteligência artificial em certos meios não é tão eminente (embora esteja lá), mas em outros, como o numa viagem de um avião e nas assistências aos pousos e decolagens a presença é tão forte (embora não esteja no pensamento dos passageiros) que dá “superpoderes” aos pilotos.

Num texto publicado neste portal em 08/04/2020, referindo-me às oportunidades na pandemia COVID-19, eu escrevi: “Os maiores saltos em desenvolvimento da humanidade aconteceram em tempos de grandes dificuldades…”. Esta força está em ação agora. A automação de diversos setores industriais e de serviços estará, de forma antecipada, num patamar muito mais elevado em pouco tempo.

O setor de serviços já sofreu uma grande virada pela automação. Em 4 meses, pessoas que não pensavam em vender pela internet foram obrigadas a usar este formato e empresas, automatizadoras de vendas, adaptaram-se para os novos clientes.

Mesmo que, para muitas pessoas e empresas, este não seja o melhor modelo de conduzir seu negócio, os relacionamentos entre o comprador, o vendedor e os automatismos cresceram e fortificaram o modelo do sistema automatizado. Na indústria, pelo custo e necessidades da infraestrutura, a mudança requer mais tempo, mas nunca esta pára e, neste momento, projetos e propostas se emaranham.

Para quem é usuário final, a inteligência artificial não eflui visivelmente, mas eu lembro bem que, em 1996, quando estudei este assunto pela primeira vez, para minha dissertação de mestrado em engenharia química, o exemplo clássico de sistemas especialistas era ELIZA, um sistema que “imitava” um psicanalista, onde uma pessoa conversava, através de um computador, com um suposto profissional.

O programa foi criado em 1964 por Joseph Weizenbaum e “dialogava”, respondendo e fazendo perguntas, com fragmentos das respostas das pessoas com tamanha “habilidade”, para aquela época, que muitos acreditaram estar conversando com um ser humano. Hoje as plataformas de inteligência artificial da IBM (Watson) e do Google (Google Cloud AI) fariam ELIZA parecer uma criança.

Seu aparelho telefônico traz a inteligência artificial para suas mãos e para sua vida. O crescimento a aceleração disso já mudaram nossa percepção do mundo e nosso lugar nele. Nenhuma atividade ou profissão está ou estará fora desta situação tecnológica.

Quando deixamos as faces técnica e tecnológica para a humana vem as perguntas:
-Onde nos posicionamos?
-Como será e qual será o papel das pessoas e das profissões neste contexto?
-A automação e a inteligência artificial dominarão o mundo?
Despretensiosidade e brevemente, vou apresentar minhas percepções duvidosas:
-Nossa posição relativa com os automatismos poderá ser desleal porque nós nos cansamos mais rapidamente.
-O papel das pessoas no mundo do trabalho mudou e está em mudança acelerada. Sua profissão é você quem faz.
-A automação e a inteligência artificial não dominarão o mundo, mas estarão cada vez mais fortemente associadas às nossas necessidades e, em algum grau, seremos dependentes delas.

Para os aprendizes, em todas as suas formas, só há certeza: num tempo em que as máquinas estão “aprendendo” e as pessoas acreditam que saber resolver uma equação do primeiro grau é um “desafio” para o Google, deixar de pensar na criatividade e na sensibilidade, associadas com conhecimento profundo é esperar, senão pela dominação, mas, ao menos, pela dependência de uma resposta com fragmentos de sua própria pergunta.

 

Você sabia?

O cursos universitários de Ciência da Computação e Engenharia de Controle e Automação abordam os conhecimentos e as aplicações mais modernas para a formação profissional, mas há diversos cursos de pós-graduação nas áreas que qualificam profissionais de matemática, química, e das engenharias em geral.

 

Fique atento!

A escolha profissional está vinculada, não só com sua ‘vocação’ e com as suas competências e habilidades já formadas, mas também, com as competências que você deseja e forma, diariamente, em todos os momentos de aprendizagem, seja no ensino formal ou não. Enquanto boas ferramentas podem lhe ser oferecidas e o ensino dos métodos de trabalho depende da disposição séria dos professores, apreender e desenvolver habilidades só depende de você.