Rafael Mariano de Bitencourt,
Neurocientista, Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde – PPGCS – UNISUL

 

“A arte existe para que a realidade não nos destrua”, escreveu certo dia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Em tempos de pandemia, com uma realidade muitas vezes assustadora batendo à nossa porta, a arte realmente pode ser uma ótima alternativa de fortalecimento da resiliência. E, embora Nietzsche já apontasse para isso, quem nos confirma essa possibilidade é a neurociência. Explico!

Nos últimos anos, alguns estudos têm se empenhado em mostrar o impacto que a arte causa em nossos cérebros e, consequentemente, em nossos comportamentos e saúde mental. Um desenho, uma música, um prato feito com carinho, um poema, uma dança, enfim, um momento no seu dia que você tire para se conectar com você mesmo/a através de alguma arte, segundo a ciência, já é o suficiente para promover mudanças importantes.

E nem precisa ser um/a profissional, um/a expert na arte escolhida para que os benefícios sejam sentidos na mente e no corpo. Basta que seja um momento sincero, um daqueles momentos em que o mundo externo deixe de existir e, com ele, também todos os problemas.

Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Drexel, na Filadélfia, mostrou que 45 minutos de produção artística foi capaz de reduzir significativamente os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, nos 39 participantes da pesquisa. Estes dados, publicados na revista científica Art Theray (2016), mostraram ainda que não importava o nível de experiência anterior que os participantes tinham com a prática artística.

Ou seja, tanto os praticantes mais experientes como os iniciantes, ambos se beneficiaram da prática e tiveram o estresse reduzido. Já um outro estudo conduzido por um grupo de pesquisadores alemães e publicado no periódico científico Plos One (2014), mostrou que um grupo de idosos, o qual foi exposto a uma experiência de 10 semanas de práticas artísticas, obteve melhores níveis de conectividade funcional no cérebro e, consequentemente, uma melhora considerável na resiliência psicológica.

Resumindo, o cérebro dos participantes desta pesquisa estava, ao fim da experiência, mais “preparado” para enfrentar as situações desafiadoras da vida. Nada mal para um momento de pandemia, não é mesmo?

E você, qual a sua arte? O que te faz, mesmo que por uns poucos instantes, desconectar dos problemas e da realidade nem sempre gentil que está à nossa volta? A minha arte é escrever! Sejam poemas ou textos como este, o momento da escrita me leva para um universo que me fortalece perante tudo aquilo que me cerca e que, segundo a própria ciência, faz bem para minha saúde.

Em tempos como este que estamos vivendo, faz-se fundamental encontrar o/a artista que existe em cada um de nós. E há um artista dentro de cada um e cada uma, não tenha dúvidas! Se você ainda não o/a encontrou, é porque talvez você não se permitiu o suficiente, o que não significa que não exista.

Vai “lá”, presta um pouco mais de atenção, depois se permita. Não e só uma questão de autoconhecimento, é também uma questão de saúde. O/A artista que há em você agradecerá; e você também!

 

Você sabia?

O hormônio do estresse citado no texto, o cortisol, está diretamente relacionado à resposta imune. Quando o estresse é contínuo e, assim, a liberação deste hormônio no nosso corpo também, temos como consequência o enfraquecimento da nossa imunidade. Ao nos estressarmos demais, damos sinal verde para que doenças nos afetem com maior facilidade. Neste sentido, a conexão com a arte pode não apenas nos deixar menos estressados e mais resilientes, como pode também, de forma indireta, favorecer nossa imunidade. Em tempos de pandemia com um vírus batendo à porta do nosso sistema imune, está aí mais um motivo para encontrar o/a artista que há em você. Está esperando o quê?

 

Fique atento!

O Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da UNISUL, desenvolve pesquisas referente à arte e outros temas relacionados à saúde física e mental. Se você tem interesse em ser um pesquisador desta área, fique atento aos editais de mestrado e doutorado do PPGCS acessando a página da UNISUL (www.unisul.br), no link “Mestrado e Doutorado”. Confere lá!