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Cannabis medicinal: uma velha alternativa para uma nova esperança

Rafael Mariano de Bitencourt Neurocientista, Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde – PPGCS - UNISUL bitencourtrm@gmail.com

Publicado em 02/10/2019 00h15

Cannabis medicinal: uma velha alternativa para uma nova esperança

Você que me lê neste momento certamente já ouviu falar, nos últimos anos, da possibilidade de uso medicinal da cannabis sp, planta popularmente conhecida por dar origem à maconha, não ouviu? Além de ouvir falar nessa possibilidade, sou capaz de afirmar que você tem alguma opinião formada sobre este assunto, provavelmente sustentada em algum conhecimento que você eventualmente possa ter, não é mesmo? A pergunta que fica é: o que você sabe, de onde vem esse conhecimento, no que ele está embasado? Pergunto isso porque vivemos em tempos onde todos parecem ser um pouco doutores de tudo, mas, na verdade, o que se tem é aquilo que eu chamo de “síndrome de Chicó”, aquele carismático personagem do filme “O Alto da Compadecida” que costumava proferir a célebre frase: “não sei, só sei que foi assim”. Em relação à cannabis medicinal é mais ou menos desta maneira que acontece, ou seja, todos têm uma opinião embasada em algum conhecimento, o problema é que nem sempre esse conhecimento vem de uma fonte confiável, se é que há uma fonte (o já comentado “só sei que foi assim”). Por isso a importância do conhecimento com responsabilidade, sobretudo no que diz respeito a este assunto, pois a cannabis medicinal é uma alternativa bastante antiga que surge como uma nova esperança para muitos pacientes.

O uso medicinal da cannabis vem de tempos muito longevos, desde de pelo menos 2700 a.C., de onde surgem os primeiros registros atribuídos ao imperador chinês ShenNeng, o qual prescrevia chá de cannabis para o tratamento de gota, reumatismo, malária, dentre outras possibilidades. Atualmente, muitas evidências científicas importantes veem sustentando de forma contundente o uso medicinal desta planta. Fato este que fez a prestigiada revista científica Nature dedicar duas de suas edições (set/2015 e ago/2019) inteiramente para falar destas evidências. Segundo artigo publicado na edição de 2015 da revista, “a cannabis é a chave do tesouro da farmacologia atual” (Owens, B., 2015, Nature). Dentre todas as possibilidades, a que vem ganhando mais destaque na mídia nos últimos tempos tem sido a utilização de extratos da planta no combate de epilepsias refratárias, ou seja, aquelas que não respondem a nenhum outro medicamento. Neste sentido, os medicamentos à base dos canabinoides têm sido a melhor esperança farmacológica que surgiu nos últimos anos para estes pacientes, muitos destes crianças que encontraram neste medicamento a única alternativa para reduzir suas severas crises convulsivas (para entender estes casos, sugiro que assistam ao documentário “Ilegal - A Vida Não Espera”, disponível gratuitamente no YouTube).

A cannabis medicinal deve ser vista como qualquer outro medicamento, algo que altera funções do organismo e que se manipulada de forma correta e responsável por profissionais capacitados, essa alteração poderá trazer benefícios à saúde de muitas pessoas. As farmácias e as nossas casas estão cheias deste tipo de substância, várias delas inclusive muito mais nocivas do que a cannabis medicinal. A diferença é que, no caso da planta em questão, temos a tendência do olhar acalorado e acabamos por focar, muitas vezes, na ilusão dos extremos, quando deveríamos simplesmente olhar de forma mais racional e menos emocional, como costumamos fazer com qualquer outro medicamento.

Você sabia!
Em 2005 a Anvisa retirou o canabidiol (CBD), constituinte extraído da Cannabis, da lista de proibidos e liberou a importação para consumo próprio, com as devidas indicações médicas (e um bocado de burocracia).  Desde então, medicamentos à base de CBD já foram prescritos por mais de mil médicos e cerca de dez mil pacientes já conseguiram autorização para importação, possibilitando o tratamento de doenças como epilepsia, esclerose múltipla, Alzheimer, Parkinson, etc.. A burocracia e o alto custo de importação são os principais entraves para o tratamento, levando várias famílias a solicitar na justiça que o SUS banque estes custos, ou até mesmo a solicitar autorização para o plantio e produção do medicamento em casa. Atualmente, mais de 35 famílias conseguiram habeas corpus preventivos para cultivar a planta para fins medicinais. Este ano a Anvisa abriu consulta pública para tratar do tema, havendo uma expectativa de que ainda em outubro a regulamentação para o plantio e produção destes medicamentos aqui no Brasil “saia da gaveta”, tornando o tratamento mais acessível e, assim, podendo beneficiar mais de dez milhões de brasileiros.

Fique atento!
O Programa de Pós-Graduação em Ciência da Saúde (PPGCS) da Unisul, por meio da linha de pesquisa em Neurociência, conta com professores que coordenam diferentes projetos de pesquisa utilizando medicamentos à base de canabinoides. Essas pesquisas testam esses medicamentos em modelos experimentais que vão do autismo à obesidade, do nível molecular ao comportamental. Se você tem interesse em ser um pesquisador desta área, fique atento aos editais de mestrado e doutorado do PPGCS acessando a página da Unisul (www.unisul.br), no link “Mestrado e Doutorado”. Confere lá!


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